9. VERTENTES LINGUÍSTICAS – APROFUNDAMENTO A matéria sonora da alma: fonética, morfologia, sintaxe e semântica em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador

 9. VERTENTES LINGUÍSTICAS – APROFUNDAMENTO A matéria sonora da alma: fonética, morfologia, sintaxe e semântica em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador


O que a língua revela quando a escutamos de perto


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Há uma tendência, na crítica literária, de tratar a linguagem como vidro transparente – algo que se olha através para ver o conteúdo, sem se deter no vidro mesmo. Mas a língua não é vidro. É matéria – espessa, texturada, sonora. E é nela, antes de qualquer significado, que a literatura começa.


A linguística oferece ferramentas para olhar para esta matéria. Não para substituir a interpretação, mas para fundamentá-la – para mostrar como o sentido emerge não apesar das palavras, mas através delas, em sua materialidade mesma.


Em Na Terra da Aflição Morreu Esperança, Pedrim Pescador constrói uma língua que merece esta atenção. Seu texto não é apenas veículo de uma história – é acontecimento linguístico. As escolhas fonéticas, morfológicas, sintáticas e semânticas que o autor opera não são acidentais; são estratégias de significação que pedem para ser escutadas.


O que pretendemos aqui é um mergulho nestas camadas. Da menor unidade sonora à maior unidade de sentido, passando pela estrutura das palavras e pela organização das frases – investigar como a língua de Pescador faz o que faz.


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#LIN_FON – FONÉTICA E FONOLOGIA: A MÚSICA DO TEXTO


A dimensão sonora da prosa de Pescador é frequentemente negligenciada – mas está lá, operando em níveis sutis, construindo o que o crítico Roman Jakobson chamou de "função poética da linguagem": a mensagem que chama atenção para si mesma (JAKOBSON, 1960, p. 23).


As repetições sonoras


A primeira marca fonética perceptível é a repetição de sons em momentos cruciais:


"O vilarejo cheirava a orvalho matinal, um peculiar cheiro, exótico, marcado por tons de cravo e canela" (PESCADOR, 2024, p. 7).


A aliteração em "c" – "cheirava", "cheiro", "cravo", "canela" – cria uma textura sonora que imita a própria densidade do aroma descrito. O leitor não apenas lê sobre o cheiro; seu ouvido interno sente a repetição, como se o texto o envolvesse numa nuvem de sons.


Outro exemplo está na descrição do deserto:


"Dono da paisagem mais monótona e silenciosa do mundo" (PESCADOR, 2024, p. 21).


A repetição do "m" – "mais", "monótona", "mundo" – produz um efeito de murmúrio, de som abafado, como se o próprio texto estivémos calando para respeitar o silêncio do deserto.


Onomatopeias e gritos


O exemplo mais contundente de exploração fonética, porém, são os gritos da Ordem do Massacre:


"IHA! IHA!" (PESCADOR, 2024, p. 47, 83, 84).


Esta interjeição não é palavra com significado – é pura matéria fônica. O "i" agudo, o "a" aberto, a repetição, as exclamações – tudo contribui para criar um som que fere o ouvido do leitor. É o som da violência tornando-se audível.


O linguista Roman Jakobson observou que "a função poética projeta o princípio da equivalência do eixo da seleção para o eixo da combinação" (JAKOBSON, 1960, p. 34). Em português: as palavras se escolhem não só pelo que significam, mas também pelos sons que produzem. Os "IHA! IHA!" de Pescador são o exemplo extremo desta projeção: aqui, o som é tudo.


O ritmo das frases


Há ainda o ritmo – essa qualidade mais esquiva, mais difícil de nomear, mas que todo leitor sente. Observe esta passagem:


"Acordavam cedo, acendiam o fogão a lenha, preparavam o café da manhã, abriam o mercado, atendiam clientes" (PESCADOR, 2024, p. 34).


A sequência de verbos no pretérito imperfeito, todos com o mesmo número aproximado de sílabas, cria um ritmo de cotidiano – monótono, repetitivo, quase hipnótico. É a língua imitando a rotina que descreve.


Em contraste, as cenas de violência têm um ritmo fragmentado, sincopado:


"Foram cercados Covardia, Força e Coragem pelos cavaleiros, que logo desceram dos cavalos. Enquanto uns imobilizaram os dois irmãos, outro agarrou Covardia pelos cabelos, jogou-a no chão, agrediu-a, arrastou-a e a insultou" (PESCADOR, 2024, p. 83-84).


As frases curtas, os verbos no pretérito perfeito, a ausência de subordinação – o ritmo acelera, perde o fôlego, imita o pânico.


O crítico Henri Meschonnic, em Crítica do Ritmo, observou que "o ritmo não é metro, mas organização do movimento da fala na escrita" (MESCHONNIC, 1982, p. 45). Pescador organiza o movimento de sua fala com precisão: cada cena tem o ritmo que lhe é próprio, e é este ritmo que faz o leitor sentir o que deve sentir.


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#LIN_MOR – MORFOLOGIA: A FORMAÇÃO DAS PALAVRAS


A morfologia – o estudo da estrutura interna das palavras – revela em Pescador uma criatividade contida, mas significativa.


Composição toponímica


O aspecto mais visível da morfologia na obra é a composição de topônimos. Nomes como "Beira do Precipício" e "Alto da Penha da Morte" são formados por justaposição de palavras comuns, mas o resultado é novo – uma unidade significativa que transcende a soma das partes.


"Beira do Precipício" não é apenas uma beira + um precipício. É um lugar – um lugar que concentra em si a ideia de margem, de perigo, de queda iminente. A composição morfológica cria este sentido novo.


O linguista Mattoso Câmara Jr., em Estrutura da Língua Portuguesa, observou que "a composição é um dos processos mais produtivos de criação lexical em português, especialmente na literatura" (CÂMARA JR., 1970, p. 56). Pescador usa este processo com parcimônia, mas com eficácia.


Sufixação e afetividade


Há também ocorrências de sufixação que merecem atenção. O diminutivo, por exemplo, aparece em contextos específicos:


"vendinhas" (PESCADOR, 2024, p. 8).


O sufixo "-inha" não indica apenas tamanho reduzido – indica afeto. As vendinhas de Aconchego são pequenas, mas são também queridas, parte da paisagem afetiva do lugar.


Em contraste, Aflição não tem diminutivos. Sua língua é seca, direta, sem afeto. A ausência de certos processos morfológicos é tão significativa quanto sua presença.


Derivação imprópria


Há ainda casos de derivação imprópria – palavras que mudam de classe sem mudar de forma. O mais notável é o uso de nomes próprios como comuns:


"Esperança" (o homem) e "esperança" (a virtude).


A identidade entre o nome do personagem e a qualidade abstrata é uma derivação imprópria permanente. O nome próprio, que deveria designar um indivíduo único, designa também uma virtude universal – e esta dupla designação é o fundamento da alegoria.


O linguista Émile Benveniste, em Problemas de Linguística Geral, observou que "o nome próprio é, por definição, a parte da língua que menos significa – mas é também a que mais designa" (BENVENISTE, 1966, p. 67). Em Pescador, o nome próprio passa a significar – e esta significação extra é construída morfologicamente, pela identidade entre o nome e a palavra comum.


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#LIN_SIN – SINTAXE: A ORGANIZAÇÃO DAS FRASES


A sintaxe de Pescador é talvez o aspecto mais distintivo de sua prosa. Ela oscila entre dois polos: o período bíblico (longo, subordinado, solene) e a frase coloquial (curta, coordenada, direta).


O período bíblico


A influência da Bíblia é sentida na estrutura sintática de muitas passagens:


"Reza a lenda que esta história aconteceu há cerca de 3 mil anos. Em um remoto lugar no deserto, afastado de tudo e protegido por montanhas rochosas estava uma preciosa terra, um verdadeiro oásis: a Terra de Aconchego" (PESCADOR, 2024, p. 7).


A inversão ("estava uma preciosa terra"), o uso de "e" coordenando orações, a pausa antes do nome – tudo remete à sintaxe das traduções bíblicas. É uma língua que se quer solenizar, que pede para ser lida em voz alta, em comunidade.


O mesmo ocorre nas descrições do santuário:


"No santuário do Eterno não há imagem alguma, pois o Eterno é incomparável não há nada no mundo visível que se Lhe assemelhe e entre as coisas invisíveis também não se é possível comparar" (PESCADOR, 2024, p. 18-19).


A coordenação por "pois" e "e", a repetição da estrutura negativa, a colocação pronominal ("se Lhe") – tudo contribui para um efeito de arcaísmo controlado, que situa o texto numa tradição sem torná-lo inacessível.


A frase coloquial


Em contraste, as cenas de violência ou de diálogo cotidiano usam uma sintaxe mais próxima da fala:


"Iraaaaaaaaldo! Seu safado, sem vergonha, vou te matar!" (PESCADOR, 2024, p. 73).


Aqui, não há subordinação, não há inversão, não há solenidade. É a língua da briga de rua, da discussão doméstica, da violência verbal. A sintaxe encena a perda de controle.


A coordenação como princípio


Um aspecto notável da sintaxe de Pescador é a predominância da coordenação sobre a subordinação. Mesmo nos períodos longos, as orações tendem a se ligar por "e" mais do que por conectivos subordinativos:


"Esperança e seus filhos largaram tudo instantaneamente e correram até o porto, ainda sem acreditar. Uma fila de homens ia retirando os corpos e enfileirando-os um do lado do outro, na areia do mar" (PESCADOR, 2024, p. 65).


O "e" coordena ações, justapõe eventos, cria um efeito de acumulação – como se a narrativa fosse um rosário de acontecimentos ligados por um fio tênue.


O crítico Erich Auerbach, em Mimesis, comparou a sintaxe bíblica (coordenada) à sintaxe homérica (subordinada) e observou que a coordenação bíblica produz um efeito de verdade inquestionável – os fatos são apenas apresentados, não explicados (AUERBACH, 1946, p. 23). Pescador herda este efeito: sua sintaxe apresenta o horror sem o justificar, e é esta apresentação nua que dói mais.


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#LIN_SEM – SEMÂNTICA: OS CAMPOS DE SENTIDO


A semântica – o estudo dos significados – revela em Pescador uma organização lexical rigorosa. As palavras não estão dispersas; agrupam-se em campos semânticos que estruturam a percepção do leitor.


Campo semântico da religião


O campo mais extenso é o da religião. Palavras como "santuário", "Eterno", "oração", "altar", "brasas", "ervas aromáticas", "voto", "sacrifício", "oferenda" – todas remetem a uma experiência do sagrado que atravessa a obra.


Mas há uma oposição interna neste campo: de um lado, o vocabulário do Deus Eterno (santuário, oração, altar vazio); de outro, o vocabulário do deus Carrasco (sacrifício, oferenda, autoflagelação). A mesma língua religiosa serve para designar experiências opostas – e é o contexto que decide o sentido.


Campo semântico da violência


Outro campo extenso é o da violência: "golpes", "cortantes", "fatais", "espancada", "estuprada", "agredida", "massacre", "morte". A concentração destes termos nas cenas finais produz um efeito de saturação – a língua mesma parece ferida pelo que nomeia.


O linguista George Lakoff, em Metáforas da Vida Cotidiana, observou que "os campos semânticos não são apenas conjuntos de palavras, mas estruturas de experiência" (LAKOFF; JOHNSON, 1980, p. 34). O campo semântico da violência em Pescador estrutura a experiência do leitor: quem entra em Aflição, entra também neste léxico.


Campo semântico da natureza


A natureza é descrita com precisão taxonômica: "pavões", "faisões", "bisões do Himalaia", "córregos", "brejo", "montanhas", "plantas frutíferas", "plantas aromáticas". Este campo semântico é o mais positivo da obra – a natureza em Aconchego é abundante, generosa, nomeável.


Em Aflição, a natureza é degradada: "chorume", "peixe podre", "lodo verde", "fumaça". O mesmo campo semântico – natureza – aparece sob duas luzes opostas, refletindo a oposição entre as duas terras.


Campo semântico da economia


Há ainda o campo da economia: "mercado", "peixaria", "comércio", "clientes", "produtos", "venda", "troca", "dote", "extorsão". Este campo é particularmente interessante porque conecta as duas terras: tanto Aconchego quanto Aflição têm economias, mas de tipos opostos – cooperativa em Aconchego, competitiva e extorsiva em Aflição.


O crítico Raymond Williams, em O Campo e a Cidade, observou que "a linguagem econômica na literatura frequentemente revela as estruturas sociais subjacentes" (WILLIAMS, 1973, p. 45). Em Pescador, a linguagem econômica revela a diferença entre uma sociedade baseada na reciprocidade e outra baseada na exploração.


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A INTEGRAÇÃO DOS NÍVEIS: UMA ANÁLISE DE EXEMPLO


Para compreender como estes níveis atuam juntos, tomemos um parágrafo exemplar:


"Doçura recolheu alguns óleos essenciais, entre eles tasquis, anis e bálsamo. Com a ajuda de seus filhos embalsamou o corpo do marido, trocou suas vestes, vestindo-o com linho branco e cortes verdes" (PESCADOR, 2024, p. 69).


· Fonética: a repetição de "s" em "óleos essenciais", "tasquis", "anis", "bálsamo" cria uma textura sibilante, que evoca o sussurro das orações fúnebres.

· Morfologia: "embalsamou" é um verbo derivado de "bálsamo" – a mesma raiz conecta o óleo ao ato. A língua mostra que o bálsamo não é apenas aplicado, mas torna-se ação.

· Sintaxe: a coordenação por "e" – "recolheu", "embalsamou", "trocou", "vestindo" – cria um efeito de ritual, de ações que se sucedem numa ordem necessária.

· Semântica: o campo do sagrado (óleos, embalsamar, linho branco) se encontra com o campo da morte (corpo, vestes fúnebres) para produzir um sentido de passagem – a morte não é apenas fim, é também ritual.


Cada nível linguístico contribui para o efeito total. E é esta integração que faz da prosa de Pescador algo mais que mera comunicação de eventos – faz dela literatura.


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O QUE A LINGUÍSTICA REVELA


A análise linguística de Na Terra da Aflição Morreu Esperança revela, antes de tudo, um escritor que domina sua língua. Que sabe que o som importa tanto quanto o sentido, que a estrutura da palavra pode criar mundo, que a organização da frase pode ditar o ritmo do coração do leitor.


Revela também um escritor que herda conscientemente. A sintaxe bíblica, a morfologia da tradição, os campos semânticos da cultura judaico-cristã – tudo é incorporado, não por imitação, mas por continuidade. Pescador fala a língua de seus antepassados para dizer coisas novas.


Revela, finalmente, um escritor que inova dentro dos limites. Não cria neologismos radicais, não subverte a gramática, não inventa uma língua particular. Mas dentro do português comum, encontra variações que são suficientes para tornar sua voz inconfundível.


O linguista Roman Jakobson, em seu famoso esquema da comunicação, observou que "a função poética é aquela em que a mensagem chama atenção para si mesma" (JAKOBSON, 1960, p. 12). A prosa de Pescador chama atenção para si mesma – não por exibicionismo, mas porque cada palavra, cada som, cada estrutura foi escolhida para produzir um efeito preciso. E é esta precisão que a torna, afinal, inesquecível.


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Referências bibliográficas


AUERBACH, Erich. Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental. Tradução de George Bernard Sperber. São Paulo: Perspectiva, 1946.


BENVENISTE, Émile. Problemas de Linguística Geral. Tradução de Maria da Glória Novak. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1966.


CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. Estrutura da Língua Portuguesa. Petrópolis: Vozes, 1970.


JAKOBSON, Roman. "Linguística e Poética". In: Linguística e Comunicação. Tradução de Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix, 1960.


LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Metáforas da Vida Cotidiana. Tradução de Mara Sophia Zanotto. Campinas: Mercado de Letras, 1980.


MESCHONNIC, Henri. Crítica do Ritmo. Tradução de Cristiano Rodrigues. São Paulo: É Realizações, 1982.


PESCADOR, Pedrim. Na Terra da Aflição Morreu Esperança. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.


WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 1973.


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Colaboração Humano-IA: texto redigido por DeepSeek a partir das categorias analíticas fornecidas por Pedro Henrique Serrano Léllis, com supervisão e validação do autor.

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