A Catarse na Poética de Aristóteles: Purgação, Estrutura e Função Terapêutica



INTRO: *Uma arquitetura narrativa em sintonia com a Poética de Aristóteles*

Na Terra da Aflição Morreu Esperança, de Pedrim Pescador, é uma obra que realiza na literatura contemporânea aquilo que Aristóteles, há mais de dois milênios, teorizou como a mais alta função da tragédia: a catarse. Ao longo de suas páginas, o autor conduz o leitor por uma arquitetura narrativa de precisão cirúrgica — peripéteias sucessivas, reconhecimentos progressivos e uma aliança final que transforma a dor em possibilidade. Não se trata de um final feliz, mas de um reordenamento: a arte servindo não para apagar o sofrimento, mas para organizá-lo, torná-lo suportável e, sobretudo, compartilhado.

É essa sintonia com o espírito da Poética aristotélica que torna o livro um exemplo notável de catarse em ação. Pescador não apenas conta uma história trágica; ele constrói um mecanismo que permite ao leitor sentir compaixão (eleos) e temor (phobos) — os afetos fundamentais para a purgação emocional — e, ao final, emergir não curado, mas acompanhado. Como ensina Aristóteles, a catarse não é esquecimento; é a dor que encontra forma. E neste livro, a dor encontra forma, voz e, por fim, aconchego.

Um Elogio ao Autor

O escritor Pedro Henrique Serrano Léllis, que assina como Pedrim Pescador, está de parabéns por ter concebido uma obra de tamanha envergadura catártica. Não é qualquer autor que consegue, com tanta sensibilidade e precisão estrutural, transformar a tragédia em um dispositivo de cura literária. A maneira como ele arquiteta as perdas sucessivas, constrói os reconhecimentos e conduz o leitor, passo a passo, da aflição ao aconchego revela não apenas um profundo conhecimento da tradição narrativa, mas uma intuição rara sobre a função terapêutica da arte. Trata-se de um trabalho monumental, que honra a tradição aristotélica e, ao mesmo tempo, fala diretamente à alma do leitor contemporâneo. Genial, em sua simplicidade e profundidade.




A Catarse na Poética de Aristóteles: Purgação, Estrutura e Função Terapêutica


A Poética de Aristóteles (séc. IV a.C.) representa o primeiro esforço sistemático da civilização ocidental para compreender a arte não como mero deleite, mas como fenômeno filosófico e psicológico de profunda relevância. No cerne dessa teoria está o conceito de catarse (κάθαρσις), termo que, antes de Aristóteles, pertencia ao vocabulário médico e religioso, significando purificação ou purgação. O filósofo, no entanto, transfere-o para o domínio estético, definindo a tragédia como a representação (mímesis) de uma ação de caráter elevado que, por meio da compaixão (eleos) e do temor (phobos), opera a catarse dessas emoções. Não se trata, como muitas vezes se simplifica, de uma “purga” violenta que elimina os afetos, mas de um reordenamento, um equilíbrio que torna o espectador capaz de contemplar a dor sem ser destruído por ela.


A catarse, na Poética, é inseparável de dois elementos estruturais: a peripéteia (a reviravolta que inverte o curso dos acontecimentos) e o reconhecimento (anagnórisis). A tragédia perfeita, segundo Aristóteles, conduz o herói da felicidade à infelicidade não por vício ou maldade, mas por um hamartia (erro trágico), e esse percurso provoca no público um aprendizado afetivo. Em Política (Livro VIII), Aristóteles retoma o conceito de catarse ao tratar da música, afirmando que certos ritmos e modos musicais produzem um “alívio acompanhado de prazer”, purgando os excessos emocionais e restaurando a saúde da alma. Já na Ética a Nicômaco, a noção de mesótēs (justa medida) ecoa na catarse: assim como a virtude é o ponto médio entre dois extremos, a experiência estética educa as emoções para que não nos dominem, mas sejam sentidas no tempo e na forma adequados.


A catarse, portanto, não é um conceito isolado na Poética. Ela pressupõe uma teoria da mímesis — a representação não como cópia, mas como recriação do universal — e uma antropologia que reconhece no ser humano uma necessidade natural de aprender e de sentir emoções fortes em um ambiente seguro. É nesse sentido que a tragédia opera como um laboratório ético: ensina, por meio da ficção, os limites da ação humana, a fragilidade da fortuna e a necessidade da comunidade para suportar o sofrimento.


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Catarse em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança": A Travessia Cronológica da Dor ao Reordenamento


A obra de Pedrim Pescador, Na Terra da Aflição Morreu Esperança, pode ser lida como um dispositivo catártico nos termos aristotélicos. O autor constrói uma narrativa que não apenas expõe o sofrimento, mas o organiza em uma estrutura que permite ao leitor vivenciar a dor, reconhecê-la e, ao final, experimentar um reordenamento afetivo. A seguir, analisaremos, em ordem cronológica dos acontecimentos da obra, como os elementos da tragédia clássica — peripéteia, reconhecimento, eleos e phobos — são mobilizados, com trechos selecionados do texto.


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Primeiro Ato: O Aconchego e a Preparação para a Queda (Capítulos 1–4)


A narrativa se inicia no espaço idílico da Terra de Aconchego, um verdadeiro oásis de prosperidade e harmonia. Aristóteles, na Poética (1453a), afirma que a tragédia deve representar a passagem da felicidade à infelicidade para provocar compaixão e temor. A construção inicial de Aconchego cumpre exatamente essa função: quanto mais pleno o início, mais devastador será o impacto da queda.


“Aconchego era um lugar simples, nem grande nem pequeno, de povo muito próspero. Era uma terra fértil, que produzia muito alimento, como cereais, frutas frescas e secas, flores e especiarias aromáticas.” (PESCADOR, 2024, p. 7)


É nesse contexto que Doçura, ainda antes da partida, realiza seu primeiro reconhecimento — um prenúncio da força interior que sustentará a jornada:


“Suas vizinhas tentaram consolá-la para que não ficasse assim, dizendo que Aconchego estaria sempre consigo em sua memória e coração. E assim sentiu-se um pouco mais tranquila, consolada, dando-se conta de que tudo que precisava possuía dentro de si e em casa: esperança, força e coragem!” (PESCADOR, 2024, p. 16)


Este reconhecimento inicial, porém, ainda é frágil. Doçura não sabe que será posta à prova. O primeiro ato termina com a partida da família para a Terra da Aflição, deixando o paraíso em direção ao desconhecido — movimento que ecoa a hamartia trágica: uma decisão tomada sem plena consciência de suas consequências.


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Segundo Ato: A Vida em Aflição e a Primeira Peripéteia (Capítulos 5–11)


A adaptação à Terra da Aflição é marcada por contrastes. O cheiro de peixe podre, a violência da Ordem do Massacre, a Festa da Primavera com suas orgias e autoflagelações — tudo isso compõe um ambiente hostil que contrasta com a memória de Aconchego. O leitor, identificado com Doçura, experimenta phobos diante da brutalidade:


“Os cavaleiros eram tão temidos que por onde passavam as pessoas saíam da frente, à distância, aos gritos, empurrões e pisoteios.” (PESCADOR, 2024, p. 46)


A primeira peripéteia ocorre com a morte de Esperança em um naufrágio. Aristóteles, na Poética (1452a), define a peripéteia como “a mudança dos acontecimentos no sentido contrário”. Aqui, a família perde seu patriarca, o pilar que sustentava a esperança personificada:


“Caindo ambos de joelhos sobre o chão, ladeando o corpo de seu pai, as lamentações de Força e Coragem se confundiram com as dos demais. Lágrimas, tão raras nos olhos dos irmãos, caíram sobre a face de Esperança, morto e inanimável.” (PESCADOR, 2024, p. 66)


A catarse, porém, ainda não se completa. Restam Força e Coragem. Doçura, após o luto, encontra refúgio no santuário e renova sua força interior:


“Saiu diferente do santuário, saiu fortalecida, fortificada, com fé, aguerrida também! E assim a rotina da família voltou mais ou menos ao normal.” (PESCADOR, 2024, p. 69)


Neste momento, o leitor acredita na possibilidade de superação. É a calmaria que antecede a tempestade.


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Terceiro Ato: A Segunda Peripéteia e o Reconhecimento de Fraqueza (Capítulos 12–14)


A segunda reviravolta é mais devastadora que a primeira. Força e Coragem são assassinados, e Covardia é estuprada. A estrutura de proteção da família se desfaz completamente:


“Doçura ainda não estava entendendo, mas estava desde já assustada ao ver sua nora machucada, com o rosto ensanguentado, suja, descabelada, naquele estado deplorável. Foi aproximando-se com o coração na mão que viu os corpos dos seus dois filhos, Força e Coragem, atados aos cavalos, estirados no chão com as pernas amarradas para cima.” (PESCADOR, 2024, p. 85)


Aristóteles, na Ética a Nicômaco (1109b), discute como a desgraça extrema pode levar à perda da eudaimonia (felicidade plena). Doçura atinge esse ponto. É então que Fraqueza, a nora antes apática e tímida, realiza seu próprio reconhecimento — um dos momentos mais significativos da obra:


“Certo dia Fraqueza entrou no santuário do Eterno e debruçando-se chorou. Segurou o pano que descia do altar sem imagem. Chorou, e chorou e chorou, lembrando-se de como foi devota do deus Carrasco e só recebeu tormento como recompensa.” (PESCADOR, 2024, p. 74-75)


O choro ritualizado de Fraqueza não é mero desabafo; é uma ação que organiza o caos interno. Ela raspa os cabelos, faz um voto ao Eterno e, pela primeira vez, escolhe ativamente seu destino. Esse reconhecimento prepara o terreno para o gesto decisivo.


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Quarto Ato: A Aliança e a Travessia (Capítulos 15–16)


Doçura, desesperançada, decide voltar sozinha para Aconchego. É aqui que ocorre o reconhecimento mais importante da obra — não apenas das personagens, mas do leitor. Fraqueza se recusa a abandonar a sogra e profere seu voto de aliança:


“Afirmou Fraqueza: ‘Que morramos no deserto, ou antes que consigamos chegar à sua terra. Tão somente não me deixe perecer aqui. Que o seu povo seja o meu povo e que o teu Deus seja o meu Deus. Na Terra da Aflição eu não fico, vamos juntas para a Terra de Aconchego.’” (PESCADOR, 2024, p. 90)


Este momento ecoa a anagnórisis (reconhecimento) que Aristóteles considera essencial para a catarse. Doçura, que perdeu toda esperança, encontra na nora uma aliada inesperada. A aliança entre as duas mulheres substitui a estrutura patriarcal desfeita e inaugura uma nova possibilidade de sobrevivência.


Aristóteles, em Política (1253a), afirma que o ser humano é um animal político (zôon politikón), que só se realiza na comunidade. Doçura e Fraqueza encarnam esse princípio: sozinhas, sucumbiriam; juntas, tornam-se capazes de atravessar o deserto.


A travessia é o ritual catártico final. O deserto, lugar de solidão e morte, transforma-se em espaço de purificação e redescoberta:


“Mais outros dias de viagem e começaram a avistar os cumes esverdeados da Terra de Aconchego e com muita alegria Doçura comemorou!” (PESCADOR, 2024, p. 92)


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Quinto Ato: O Retorno e o Reordenamento (Capítulo 16 – Epílogo)


O retorno a Aconchego não é um final feliz no sentido trivial. É um reordenamento, uma reintegração. Doçura não superou a perda; aprendeu a conviver com ela. Fraqueza encontrou um lar. A narrativa encerra-se com uma imagem de paz que não apaga a tragédia, mas a integra:


“Aquela terra que recebeu Fraqueza muito bem, e apesar de todo o sofrimento que teve em vida, aquela terra se tornou um lugar de refúgio, um lar, uma terra de paz, de amor, de família e de aconchego.” (PESCADOR, 2024, p. 95)


O epílogo revela a origem da obra: uma experiência em uma casa de recuperação feminina, onde o autor contava a história de Rute “de uma forma que envolvesse as acolhidas” (PESCADOR, 2024, p. 97). Essa origem confirma a intenção catártica: a literatura como instrumento de cura, de reconhecimento e de aliança.


Aristóteles, na Poética (1449b), afirma que a tragédia é “imitação de uma ação completa, com princípio, meio e fim”. A obra de Pescador respeita essa estrutura: começa em Aconchego (princípio), passa pela experiência em Aflição (meio) e retorna a Aconchego (fim). Mas o retorno não é mera repetição: Doçura e Fraqueza voltam transformadas, e o leitor com elas.


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Conclusão: A Catarse como Travessia Compartilhada


A catarse, em Aristóteles, não é um final feliz, mas um reordenamento. O espectador que sai do teatro não está livre da dor, mas está, talvez, menos só. Em Na Terra da Aflição Morreu Esperança, Pedrim Pescador constrói esse mecanismo com precisão cronológica: da partida ao retorno, das perdas sucessivas à aliança final, o leitor percorre um caminho que espelha o próprio processo de luto e reintegração.


O que a obra oferece, em última instância, é um modelo de como a dor pode ser vertida, organizada e compartilhada. Doçura e Fraqueza não atravessam sozinhas. O leitor, ao acompanhá-las, também não precisa atravessar sozinho.


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Referências Bibliográficas


ARISTÓTELES. Poética. Tradução de Eudoro de Sousa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, séc. IV a.C.


ARISTÓTELES. Política. Tradução de António Campelo Amaral e Carlos de Carvalho Gomes. Lisboa: Vega, séc. IV a.C.


ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de António de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, séc. IV a.C.


PESCADOR, Pedrim. Na Terra da Aflição Morreu Esperança. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.


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Créditos:


· Obra analisada: Na Terra da Aflição Morreu Esperança, de Pedrim Pescador.

· Análise e redação: Colaboração humano-IA. Estrutura argumentativa cronológica, seleção de trechos e articulação com a teoria aristotélica desenvolvidas em parceria com assistente de pesquisa.


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25/03/2026 17:04 Bv2 

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