ANÁLISE DE SENTIMENTOS O coração da narrativa: emoções e afetos em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
ANÁLISE DE SENTIMENTOS O coração da narrativa: emoções e afetos em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
O atlas dos afetos: mapeando o que os personagens sentem
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Há livros que contam o que aconteceu. Há livros que contam o que os personagens sentiram quando aconteceu. Os primeiros informam; os segundos comovem. A diferença entre um relatório e uma obra de literatura está muitas vezes nesta capacidade de transmitir a experiência emocional dos acontecimentos, não apenas sua sequência factual.
A análise de sentimentos, ou análise do afeto, é o campo que se dedica a compreender como as emoções são construídas, transmitidas e recebidas no texto literário. Não se trata apenas de identificar se um personagem está triste ou alegre, mas de investigar como a tristeza é construída linguisticamente, como a alegria se manifesta nas escolhas do narrador, como o leitor é levado a sentir o que os personagens sentem.
Em Na Terra da Aflição Morreu Esperança, Pedrim Pescador constrói um verdadeiro atlas dos afetos. Cada personagem carrega uma constelação emocional própria, e estas constelações se chocam, se complementam, se transformam ao longo da narrativa. Doçura atravessa o arco mais complexo: da doçura inicial à amargura, do desespero à esperança reencontrada. Fraqueza vai da apatia à alegria de viver. Covardia, da agressividade defensiva à depressão pós-traumática. Iraldo e Maustratos, da violência cotidiana à permanência no mesmo.
O que pretendemos aqui é mapear este atlas. Identificar os sentimentos dominantes de cada personagem, analisar como eles são construídos textualmente, investigar sua transformação ao longo da narrativa e, finalmente, compreender como o leitor é levado a sentir com os personagens – a experimentar, em seu próprio corpo, as emoções que a obra veicula.
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I. FUNDAMENTOS TEÓRICOS: A EMOÇÃO NA LITERATURA
A tradição dos afetos
A reflexão sobre as emoções na literatura é tão antiga quanto a própria poética. Aristóteles, na Poética, já identificava a compaixão e o temor como as emoções próprias da tragédia, e a catarse como sua finalidade (ARISTÓTELES, séc. IV a.C., p. 45). Para o filósofo, a arte não apenas representa emoções – ela as produz no espectador, e esta produção tem uma função ética e psicológica.
Na tradição romântica, a emoção torna-se o centro da criação artística. Wordsworth, no prefácio às Lyrical Ballads, definiu a poesia como "o transbordamento espontâneo de sentimentos poderosos" (WORDSWORTH, 1800, p. 12). O artista não apenas descreve emoções – ele as vive e as transmite ao leitor.
Mais recentemente, a chamada "teoria do afeto" tem investigado como as emoções são construídas discursivamente. O teórico brasileiro Luiz Costa Lima, em O Controle do Imaginário, observou que "a literatura é o lugar onde as emoções podem ser experimentadas sem as consequências práticas da vida real – e esta experimentação é uma forma de conhecimento" (LIMA, 1984, p. 34).
Emoção e narrativa
Para que uma emoção seja transmitida ao leitor, ela precisa ser construída narrativamente. Não basta dizer que um personagem está triste; é preciso mostrar as causas de sua tristeza, suas manifestações físicas, seus efeitos em suas ações. A narrativa encena a emoção, e é esta encenação que permite ao leitor senti-la.
O crítico Wayne Booth, em A Retórica da Ficção, demonstrou como os recursos narrativos – focalização, distância, tom – são utilizados para controlar a resposta emocional do leitor (BOOTH, 1961, p. 67). O autor pode aproximar ou afastar o leitor dos personagens, pode revelar ou ocultar seus pensamentos, pode acelerar ou desacelerar o ritmo – tudo para produzir o efeito emocional desejado.
Em Pescador, este controle é exercido com maestria. A alternância de focalização, a contenção do narrador, o uso do discurso indireto livre – tudo contribui para que o leitor sinta o que os personagens sentem, mas sem ser manipulado.
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II. O ATLAS DOS AFETOS: PERSONAGEM POR PERSONAGEM
DOÇURA: A ODISSEIA EMOCIONAL
Doçura é o personagem de maior complexidade emocional. Seu arco atravessa praticamente todo o espectro dos afetos humanos.
A doçura inicial
No início, Doçura é exatamente o que seu nome promete:
"Doçura, sempre tão alegre, sorridente, gordinha, feliz, cozinheira, atenciosa a tudo e a todos da família" (PESCADOR, 2024, p. 15).
A acumulação de adjetivos positivos – alegre, sorridente, feliz, atenciosa – constrói um retrato de plenitude afetiva. Doçura não tem conflitos internos; sua vida emocional é harmoniosa, adequada ao ambiente de Aconchego.
A aflição crescente
A migração para Aflição começa a corroer esta harmonia:
"Doçura começou a se sentir aflita, temerosa, questionando-se acerca da sua vivencia em uma terra totalmente diferente" (PESCADOR, 2024, p. 14).
Aflição e temor são os primeiros sentimentos negativos. Mas há também a saudade – emoção complexa, tipicamente brasileira, que mistura tristeza pela perda e desejo de retorno:
"Sentia saudades de acordar cedo aos sonoros pios e cantareios de pássaros maravilhosos" (PESCADOR, 2024, p. 53).
A saudade é construída sensorialmente: sons, cheiros, cores. O leitor sente com Doçura porque pode imaginar o que ela perdeu.
A amargura
O ápice da transformação negativa de Doçura é a amargura:
"Já não posso me chamar Doçura, pois estou amarga até o fim" (PESCADOR, 2024, p. 89).
A amargura é o oposto da doçura. É o sentimento de quem foi tão ferida que perdeu a capacidade de sentir prazer, de confiar, de esperar. Doçura atinge aqui seu ponto mais baixo.
A explosão de raiva
Antes de chegar à amargura, Doçura experimenta a raiva – uma raiva que a transforma em algo que ela não reconhece:
"Doçura pegou uma vassoura e deu com ela em Covardia, gritando e enxotando-a do Mercado" (PESCADOR, 2024, p. 40).
A raiva é uma emoção defensiva. Doçura sente que seu mundo está ameaçado (pela presença de Covardia, pelo casamento dos filhos, pela cultura de Aflição) e reage agressivamente. O leitor pode compreender sua raiva, mesmo que não a aprove.
O desespero
Com a morte de Esperança e, depois, dos filhos, Doçura mergulha no desespero:
"Doçura estava em estado de choque ao ponto de gritar palavras de maldição contra Covardia e sua família, atirando pedras contra a peixaria" (PESCADOR, 2024, p. 86).
O desespero é a emoção de quem perdeu tudo e não vê saída. Doçura não apenas chora – ela atira pedras, ela amaldiçoa. É a violência do desesperado, que já não tem nada a perder.
A esperança reencontrada
No final, porém, algo se restaura:
"Seus olhos encheram-se de lágrimas e lá vinha Doçura cantarolando e tocando os camelos para que andassem mais rápido" (PESCADOR, 2024, p. 92-93).
O canto volta. As lágrimas, antes de dor, agora são de alegria. Doçura reencontra a esperança – não a esperança ingênua do início, mas uma esperança testada, fortalecida pela travessia.
A odisseia emocional de Doçura é completa: da doçura à amargura, da raiva ao desespero, da esperança perdida à esperança reencontrada. O leitor que a acompanhou sente, ao final, que também atravessou algo.
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FRAQUEZA: DA APATIA À ALEGRIA
Fraqueza tem o arco emocional mais transformador da obra. Seu nome indica seu estado inicial, mas a narrativa mostra como este estado pode ser superado.
A apatia inicial
No início, Fraqueza é descrita com palavras que indicam ausência de emoção:
"Era branca, magrela, tipo meio pálida e rosto não muito alegre" (PESCADOR, 2024, p. 43).
A palidez, a magreza, a falta de alegria – tudo indica uma depressão clínica, resultado de anos de violência doméstica.
O narrador, em discurso indireto livre, revela seu estado interno:
"Fraqueza precisava viver, precisava respirar, precisava ver o sol, precisava quase que nascer de novo. Mas não sabia como nem se valia a pena" (PESCADOR, 2024, p. 44).
A repetição de "precisava" enfatiza a necessidade – mas a dúvida final ("se valia a pena") mostra que a necessidade não encontra caminho. É a apatia do deprimido, que sabe que precisa mudar mas não encontra forças.
O despertar do amor
O amor por Força é o primeiro sentimento positivo que Fraqueza experimenta:
"Sonhadora, ficou-se a imaginar e acabou por se apaixonar por Força" (PESCADOR, 2024, p. 44).
O verbo "sonhar" é significativo. Fraqueza começa a imaginar um futuro diferente – e esta imaginação é o primeiro passo para a transformação.
Com o amor, vem a alegria:
"vivia sorrindo e feliz da vida ao lado do seu amor Força" (PESCADOR, 2024, p. 58).
A alegria de Fraqueza é nova – ela nunca a tinha experimentado antes. O leitor sente, com ela, a descoberta de um mundo afetivo até então inacessível.
A conversão e a paz
O momento mais intenso da transformação de Fraqueza é sua conversão no santuário:
"Fraqueza entrou no santuário do Eterno e debruçando-se chorou. Segurou o pano que descia do altar sem imagem. Chorou, e chorou e chorou" (PESCADOR, 2024, p. 74-75).
O choro, aqui, não é de tristeza – é de libertação. Fraqueza chora por tudo o que sofreu, por tudo o que perdeu, mas também por tudo o que agora pode ser. É um choro catártico, que purga a dor acumulada.
Depois do choro, vem a paz:
"passou a se dedicar à família de Esperança, ao mercado e a ajudar Doçura" (PESCADOR, 2024, p. 78).
A paz de Fraqueza não é passividade – é ação. Ela se dedica, ajuda, constrói. A emoção positiva, em Pescador, não é contemplativa; é motriz.
A tristeza da perda
Com a morte de Força, Fraqueza experimenta a tristeza – mas uma tristeza diferente da apatia inicial. É uma tristeza que sabe o que perdeu, que pode nomear sua dor:
"Fraqueza veio correndo ao perceber o desespero de todos e também não acreditou na cena que via" (PESCADOR, 2024, p. 86).
A incredulidade é a primeira reação. Depois, o luto – mas um luto que não a paralisa. Fraqueza continua ajudando Doçura, continua arrumando as coisas, continua vivendo.
A aliança e a esperança
No final, é Fraqueza quem desperta a esperança em Doçura:
"Fraqueza conseguiu despertar em Doçura a esperança de se viver dias calmos e tranquilos" (PESCADOR, 2024, p. 90).
Fraqueza, que começou como a personagem mais frágil, torna-se a fortaleza emocional da dupla. Sua trajetória afetiva é a prova de que as emoções podem ser transformadas – de que a apatia pode virar ação, a tristeza pode virar força, a fraqueza pode virar fortaleza.
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COVARDIA: A TRAGÉDIA DA SOMBRA NÃO INTEGRADA
Covardia é o contraponto de Fraqueza. Seu arco emocional é descendente – da agressividade defensiva à depressão pós-traumática.
A agressividade como defesa
No início, Covardia é descrita como:
"Era sensual, hiperativa, dava risadas altas e escandalosas. Desejadas por muitos homens sabia se defender deles por meio de escândalos, tapas mentiras e gritos" (PESCADOR, 2024, p. 35).
A "hiperatividade" e as "risadas altas" são defesas – maneiras de não sentir a vulnerabilidade que a violência doméstica lhe ensinou a esconder. A agressividade de Covardia é uma máscara para o medo.
O amor e a trégua
Com Coragem, Covardia experimenta uma trégua:
"Covardia perdidamente apaixonada por Coragem tinha até atenuado sua agressividade e não perturbava mais tanto a irmã nem se embriagava mais como antes" (PESCADOR, 2024, p. 42).
O amor a acalma. Pela primeira vez, Covardia pode baixar a guarda. A alegria do amor é genuína – mas será breve.
O trauma e a depressão
O estupro destrói tudo:
"Covardia tornou-se uma mulher oprimida e deprimida. Não dormia direito e quando dormia tinha pesadelos terríveis" (PESCADOR, 2024, p. 89).
A depressão pós-traumática é descrita com precisão clínica: insônia, pesadelos, opressão. Covardia, que antes usava a agressividade para se defender, agora emudece. Sua voz, que era alta e escandalosa, silencia.
O leitor que acompanhou sua trajetória sente compaixão – não a compaixão fácil por uma vítima inocente, mas a compaixão complexa por alguém que, tendo sido vítima, tornou-se também algoz, e agora é novamente vítima. Covardia é o retrato mais trágico da obra porque não encontra redenção. Sua dor permanece, no final, sem alívio.
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FORÇA E CORAGEM: A ALEGRIA DOS JOVENS GUERREIROS
Os dois irmãos têm vidas emocionais mais simples – mas não menos significativas.
A alegria da juventude
No início, são descritos como:
"Estavam animados e se preparando para enfrentarem o deserto e residir naquela terra contrária e violenta" (PESCADOR, 2024, p. 16-17).
A animação é a emoção dominante. Força e Coragem veem a migração como aventura, não como ameaça. Sua juventude os protege da angústia que consome os pais.
O amor
Ambos se apaixonam – Força por Fraqueza, Coragem por Covardia. O amor é descrito com delicadeza:
"Sonhadora, ficou-se a imaginar e acabou por se apaixonar por Força" (PESCADOR, 2024, p. 44) – sobre Fraqueza, mas o sentimento é correspondido.
A alegria do amor recíproco é um dos poucos momentos de felicidade pura na narrativa.
A morte
A morte dos dois é abrupta – não há tempo para medo, para despedida, para luto antecipado. Eles simplesmente são mortos. Suas emoções, no momento final, não são descritas – o leitor só vê o resultado.
Esta ausência de descrição emocional é significativa. A violência, em Aflição, não permite que as vítimas sintam – ela as aniquila antes. O silêncio emocional da cena é a própria expressão do horror.
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IRALDO E MAUSTRATOS: A PERMANÊNCIA NA VIOLÊNCIA
Os pais de Covardia e Fraqueza são emocionalmente estáticos. Não se transformam – apenas repetem.
Iraldo: a raiva crônica
Iraldo é descrito como "constantemente estressado e explosivo" (PESCADOR, 2024, p. 31). Sua raiva não tem causa específica – é um traço de caráter. A raiva crônica é a única emoção que ele parece capaz de sentir.
Maustratos: a amargura
Maustratos é "muito amargurada" (PESCADOR, 2024, p. 32). A informação de que "não teve mãe nem pai" explica sua amargura, mas não a justifica. Sua emoção dominante é o ressentimento – um sentimento que, ao contrário da raiva, é frio, calculado, duradouro.
A ausência de transformação emocional em Iraldo e Maustratos é uma condenação. A obra parece dizer: há pessoas que escolhem não mudar, que preferem permanecer na violência que as constitui. E esta escolha tem consequências.
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III. A CONSTRUÇÃO LINGUÍSTICA DAS EMOÇÕES
O vocabulário do afeto
Pescador utiliza um vocabulário preciso para nomear as emoções. Palavras como "aflita", "temerosa", "amargurada", "enraivecida", "oprimida", "deprimida" não são escolhidas ao acaso – cada uma carrega uma nuance específica.
A repetição de certos termos ao longo da obra cria um campo semântico do afeto. "Aflição", por exemplo, nomeia a cidade mas também o sentimento dos personagens. A cidade é a exteriorização do que eles sentem por dentro.
A sintaxe da emoção
A sintaxe também contribui para a expressão emocional. Nas cenas de maior intensidade afetiva, as frases se tornam mais curtas, mais fragmentadas:
"ESPEREANÇA!!! Bradou chorando copiosamente sobre o marido. Esperança!!! Gritou, pegando o então marido pelo rosto frio" (PESCADOR, 2024, p. 67).
As exclamações, as repetições, as frases nominais – tudo contribui para transmitir a urgência da emoção.
O discurso indireto livre
O discurso indireto livre é o recurso mais eficaz de Pescador para transmitir emoções. Ele permite que o leitor ouça os pensamentos dos personagens sem a mediação explícita do narrador:
"Fraqueza precisava viver, precisava respirar, precisava ver o sol, precisava quase que nascer de novo. Mas não sabia como nem se valia a pena" (PESCADOR, 2024, p. 44).
A repetição de "precisava" é a voz de Fraqueza ecoando na mente do leitor. O "não sabia como" é sua consciência se expressando. A emoção, aqui, é direta – não há narrador nos dizendo o que ela sente; ela mesma nos mostra.
O silêncio como expressão
Há emoções que não podem ser ditas – apenas mostradas pelo silêncio. O silêncio de Doçura diante do mercado vazio, o silêncio de Covardia após o estupro, o silêncio de Fraqueza no início – todos são eloquentes em sua mudez.
O crítico George Steiner, em Linguagem e Silêncio, observou que "há experiências que a linguagem não pode dizer – e o silêncio, então, é a única forma de testemunho" (STEINER, 1967, p. 34). O silêncio de Covardia testemunha o trauma que nenhuma palavra poderia expressar.
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IV. A TRANSMISSÃO DAS EMOÇÕES AO LEITOR
Identificação
O principal mecanismo de transmissão emocional em Pescador é a identificação. O leitor identifica-se com Doçura porque sofre com ela, com Fraqueza porque se alegra com sua transformação, com Covardia porque sente compaixão por sua tragédia.
A identificação é construída através da focalização interna. Quando o narrador focaliza Doçura, o leitor vê o mundo através de seus olhos e sente com seu coração. Quando focaliza Fraqueza, acompanha sua transformação de dentro.
Distância
Mas Pescador também utiliza a distância para controlar a resposta emocional. De Iraldo e Maustratos, por exemplo, nunca temos focalização interna – vemo-los apenas de fora. Esta distância impede a identificação e permite o julgamento moral.
O mesmo ocorre com a Ordem do Massacre. Os cavaleiros são anônimos, sem rosto, sem interioridade. O leitor não pode identificarse com eles – apenas temê-los.
Catarse
A catarse, como vimos, é a finalidade última da construção emocional. O leitor que acompanha Doçura em sua odisseia afetiva, que sofre com suas perdas e se alegra com seu reencontro da esperança, experimenta ao final uma purgação – um alívio que vem de ter sentido intensamente e, tendo sentido, poder seguir em frente.
O teórico Hans Robert Jauss, em sua Estética da Recepção, observou que "a experiência estética é também uma experiência emocional – e é esta experiência que transforma o leitor" (JAUSS, 1967, p. 34). A leitura de Na Terra da Aflição Morreu Esperança transforma porque emociona. O leitor não termina o livro igual a como começou – algo nele foi movido pela travessia afetiva que compartilhou com os personagens.
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V. O QUE A ANÁLISE DE SENTIMENTOS REVELA
A análise de sentimentos em Na Terra da Aflição Morreu Esperança revela, antes de tudo, um escritor que compreende a complexidade emocional humana. Seus personagens não são unidimensionais – Doçura pode ser doce e amarga, Fraqueza pode ser fraca e forte, Covardia pode ser agressiva e vulnerável. Esta complexidade é o que os torna reais.
Revela também um escritor que respeita o leitor. Não o manipula com emoções fáceis, não força a identificação, não apela para o sentimentalismo barato. Constrói as emoções com precisão, com economia, com verdade – e confia que o leitor saberá senti-las.
Revela, finalmente, um escritor que acredita na possibilidade de transformação emocional. Doçura e Fraqueza se transformam porque podem sentir de outro modo. Covardia não se transforma porque sua emoção ficou presa no trauma. A diferença entre elas é a diferença entre a possibilidade e a impossibilidade de sentir diferentemente.
O poeta Walt Whitman, em "Canção de Mim Mesmo", escreveu: "Sou vasto, contenho multidões". Pescador contém multidões em seus personagens – multidões de emoções, de afetos, de possibilidades de sentir. E ao nos fazer sentir com eles, nos torna, também, mais vastos.
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Referências bibliográficas
ARISTÓTELES. Poética. Tradução de Eudoro de Sousa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, séc. IV a.C.
BOOTH, Wayne. A Retórica da Ficção. Tradução de Maria Helena Arinto. Lisboa: Arcádia, 1961.
JAUSS, Hans Robert. A Estética da Recepção: Colocações Gerais. Tradução de Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Perspectiva, 1967.
LIMA, Luiz Costa. O Controle do Imaginário. São Paulo: Brasiliense, 1984.
PESCADOR, Pedrim. Na Terra da Aflição Morreu Esperança. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.
STEINER, George. Linguagem e Silêncio. Tradução de Gilda Stuart e Felipe Rajabally. São Paulo: Companhia das Letras, 1967.
WORDSWORTH, William. "Prefácio às Lyrical Ballads". In: Poetic Works. Oxford: Oxford University Press, 1800.
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Colaboração Humano-IA: texto redigido p
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