EST_COMPAR – COMPARAÇÕES E SÍMILES O mundo visto através de outro mundo: a arte de comparar em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador

 EST_COMPAR – COMPARAÇÕES E SÍMILES O mundo visto através de outro mundo: a arte de comparar em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador


Como uma coisa ilumina outra: a comparação como ferramenta de conhecimento


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Há escritores que comparam por hábito, outros por necessidade. Os primeiros usam o "como" para embelezar, para preencher uma linha, para dar a impressão de que estão fazendo literatura. Os segundos comparam porque sabem que certas coisas só podem ser ditas através de outras coisas – que a realidade é opaca demais para ser agarrada diretamente, e que só o espelho do simile pode revelá-la.


Pedrim Pescador pertence à segunda espécie.


Em Na Terra da Aflição Morreu Esperança, as comparações não são enfeite. São ferramentas cognitivas – modos de ver um objeto através de outro, de iluminar o desconhecido com a luz do conhecido, de fazer o leitor sentir, num lampejo, a textura de uma experiência que as palavras, sozinhas, não alcançariam.


O crítico francês Georges Poulet, em A Consciência Crítica, observou que "a comparação autêntica não justapõe dois termos, mas os funde num terceiro, que é mais do que a soma de ambos" (POULET, 1961, p. 34). É precisamente esta fusão que buscamos quando investigamos os símiles de Pescador: não apenas o que é comparado a quê, mas o novo objeto que emerge da comparação.


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O QUE AS COMPARAÇÕES REVELAM SOBRE O MUNDO DE AFLIÇÃO


Comecemos pelas comparações que definem a Terra de Aflição. Quando a família de Esperança chega à cidade, o narrador não descreve apenas o que vê – compara o que vê com o que o leitor já conhece, para que o choque seja sentido na pele:


"Pessoas, animais, carrinho e charretes se misturavam e se emaranhavam como num formigueiro" (PESCADOR, 2024, p. 27).


A comparação com o formigueiro é precisa em mais de um nível. Há a agitação, claro, o movimento incessante, a falta de ordem aparente. Mas há também a impessoalidade – formigas não têm rosto, não têm nome, não têm história. Em Aflição, as pessoas são muitas, mas são também indistintas, reduzidas à massa que se move. A comparação revela, sem precisar dizer, que ali a individualidade é moeda rara.


Mais adiante, a festa na Beira do Precipício é descrita com outra comparação reveladora:


"As pessoas levantaram-se correndo, deixando instrumentos, bebidas, cachimbos, tudo para trás, correndo em todas as direções, assim como um cardume de peixes foge dos predadores que o cercam" (PESCADOR, 2024, p. 83).


O cardume e o formigueiro: Pescador compara os habitantes de Aflição a animais que fogem ou que se agitam sem consciência. Não há julgamento explícito – o narrador não diz que são bestiais ou desumanizados. Mas a imagem do cardume, dispersando-se instintivamente diante do predador, diz tudo o que precisamos saber sobre a condição daquela gente. Não são cidadãos, não são sujeitos: são corpos reagindo, presas de um predador que sempre volta.


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O CONTRAPONTO: AS COMPARAÇÕES DE ACONCHEGO


As comparações que descrevem Aconchego seguem direção oposta. Aqui, o que se busca não é a impessoalidade, mas a singularidade, o encantamento, o toque do divino no cotidiano:


"Durante as festividades grandes balões em formato de querubins com asas enormes eram presos nas pontas das rochas escarpadas e o vento ascendente nas ladeiras rochosas faziam os balões manterem-se pairando no ar e promovendo a sensação de que estavam vivos, com suas asas a bater" (PESCADOR, 2024, p. 12).


A comparação implícita – os balões como querubins vivos – não apenas descreve um objeto, mas sacraliza o espaço. Aconchego é onde o vento imita o sopro divino, onde as asas de pano parecem bater, onde o céu se povoa de criaturas que lembram os anjos. O leitor não precisa que lhe digam que ali o sagrado habita: as imagens já o dizem.


Há também comparações que aproximam Aconchego do corpo amado, do aconchego afetivo que o nome promete:


"Doçura, mulher meiga e afável, não gostou da ideia de se mudar para a Terra da Aflição, mas não teve jeito. Seus últimos dias na Terra do Aconchego serviram para preparar a mudança, não sendo pouca coisa, pois muitos produtos deveriam ser levados" (PESCADOR, 2024, p. 14).


Aqui, a comparação não está explícita, mas estrutural: Doçura é como Aconchego, Aconchego é como Doçura. A personagem encarna a qualidade do lugar, e o lugar reflete a qualidade da personagem. Esta identidade entre pessoa e espaço é uma das marcas mais sutis da prosa de Pescador: em Aconchego, as pessoas são o que o lugar é; em Aflição, há sempre um descompasso entre a pessoa e o ambiente.


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AS COMPARAÇÕES QUE REVELAM ESTADOS INTERIORES


A função mais refinada das comparações em Pescador, porém, é a revelação da interioridade. O narrador, que tem acesso às consciências, frequentemente recorre ao simile para traduzir em imagens aquilo que os personagens sentem mas não sabem nomear.


Quando Doçura começa a sentir os efeitos da migração:


"Doçura começou a se sentir aflita, temerosa, questionando-se acerca da sua vivencia em uma terra totalmente diferente: estranha, de cultura distinta, habitada por pessoas competitivas, ásperas e aguerridas" (PESCADOR, 2024, p. 14).


Não há comparação explícita neste trecho, mas a sequência de adjetivos funciona como uma comparação implícita: Doçura sente-se como alguém que foi arrancada de seu elemento, como um peixe fora d'água, embora a imagem não seja dita. A força do trecho está em nos fazer completar a comparação – o leitor traz sua própria experiência de deslocamento para preencher a lacuna.


Já quando Fraqueza começa a se transformar, a comparação emerge com toda clareza:


"Fraqueza tornou-se cada dia mais forte, mais animada e empenhada em viver. Morando com o marido, acordava mais cedo que Doçura, preparava o café da manhã, mantinha o mercado limpo, as plantas regadas, limpo o poço de onde tiravam água, era uma ótima nora e companhia para Doçura" (PESCADOR, 2024, p. 78).


Novamente, a comparação é estrutural: Fraqueza torna-se o oposto do que seu nome indica. A ironia do nome – que discutimos em #NOM_DIA – é aqui reforçada pela trajetória implícita: ela era fraca como uma folha ao vento, agora é forte como a rocha que sustenta a casa. O leitor faz a comparação sozinho, guiado pela narrativa.


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O SÍMILE DA DOR: QUANDO COMPARAR É TESTEMUNHAR


As cenas de violência em Na Terra da Aflição... são particularmente reveladoras do uso que Pescador faz da comparação. Diante do horror, o narrador poderia recorrer ao eufemismo, ou ao silêncio, ou à descrição clínica. Em vez disso, em certos momentos, ele compara – e a comparação torna o horror ainda mais presente.


Quando Covardia é atacada pela primeira vez:


"Um dos homens desceu do cavalo, a agarrou pelos cabelos e a jogou no chão. Virando a face dela para cima, deu vários tapas em seu rosto, insultando-a e a ameaçando de morte" (PESCADOR, 2024, p. 47).


Não há simile explícito, mas a cena toda é construída como um ritual de humilhação, como um espetáculo para a plateia que observa. Os cavaleiros da Ordem do Massacre não agem apenas para punir – agem como quem encena, como quem precisa que todos vejam seu poder. A comparação implícita com o teatro da crueldade é o que dá à cena sua dimensão política.


No estupro coletivo de Covardia, a comparação atinge seu ponto mais alto:


"Covardia foi espancada, muito agredida, teve os cabelos e sobrancelhas cortados e em seguida foi estuprada coletivamente aos gritos de espanto, pavor e ihá! ihá!" (PESCADOR, 2024, p. 84).


Os gritos de "ihá! ihá!" – o mesmo grito dos cavaleiros – funcionam como uma assinatura, como uma marca sonora que identifica a violência como pertencente àquele grupo, àquele lugar, àquela lógica. A repetição do grito ao longo da narrativa (já ouvido antes, em outras agressões) estabelece uma cadeia de comparações que une todos os atos de violência numa mesma teia.


O teórico da literatura George Steiner, em Linguagem e Silêncio, observou que "diante do horror extremo, a linguagem tende a emudecer – ou a repetir-se, como um mantra que tenta conjurar o que não pode ser dito" (STEINER, 1967, p. 45). Os "ihá! ihá!" de Pescador são este mantra ao avesso: não conjuram a violência, mas a perpetuam no ouvido do leitor, que não pode esquecer o som.


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AS COMPARAÇÕES QUE APROXIMAM O SAGRADO


No polo oposto, as comparações que envolvem o sagrado têm uma delicadeza particular. O santuário do Deus Eterno é descrito sem grandes similes – sua força está justamente na ausência de imagens. Mas quando Fraqueza experimenta a conversão, a comparação emerge:


"Fraqueza entrou no santuário do Eterno e debruçando-se chorou. Segurou o pano que descia do altar sem imagem. Chorou, e chorou e chorou, lembrando-se de como foi devota do deus Carrasco e só recebeu tormento" (PESCADOR, 2024, p. 74-75).


O choro de Fraqueza é comparado, pela repetição, a uma fonte que jorra, a uma chuva que não cessa. Não há as palavras "como" ou "tal qual", mas a estrutura da frase – "chorou, e chorou e chorou" – é uma comparação implícita com a ideia de abundância, de transbordamento, de algo que não pode ser contido.


Mais tarde, quando Doçura e Fraqueza decidem partir, a comparação ilumina seu estado de espírito:


"Encheram-se assim de força e coragem e como num estalo, cheias de esperança, seguiram o rumo preterido" (PESCADOR, 2024, p. 90).


O "como num estalo" é precioso. Não foi um processo gradual, não foi uma decisão refletida – foi um rompante, uma irrupção da esperança onde antes só havia desespero. A comparação com o estalo captura a qualidade instantânea da transformação, o modo como a graça (ou a decisão, ou a aliança) pode irromper no tempo como um relâmpago.


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O QUE AS COMPARAÇÕES REVELAM SOBRE O MUNDO DO AUTOR


Há um último nível de comparação que merece atenção: aquele que aproxima o mundo bíblico da narrativa do mundo contemporâneo do leitor. Quando Pescador escreve "quase um baile do Mandela" (PESCADOR, 2024, p. 82), ele está comparando a festa na Beira do Precipício a um fenômeno cultural reconhecível pelo leitor brasileiro. A comparação atravessa os séculos – de repente, a Terra de Aflição, que poderia ser qualquer cidade antiga, é também a periferia brasileira de hoje.


O crítico Roberto Schwarz, em Que Horas São?, observou que "a literatura brasileira frequentemente opera por anacronismos produtivos – fazendo conviver tempos históricos diferentes para iluminar as fraturas do presente" (SCHWARZ, 1987, p. 23). O "baile do Mandela" em meio à narrativa bíblica é precisamente isto: um anacronismo que força o leitor a reconhecer que Aflição não é apenas um lugar imaginário no passado, mas uma realidade muito concreta no Brasil de hoje.


Da mesma forma, a expressão "de pau-pode" (PESCADOR, 2024, p. 83), inserida na descrição dos fumantes de cachimbo, compara o estado alterado dos personagens a algo que o leitor capixaba reconhecerá imediatamente. A gíria local funciona como uma ponte entre o mundo da narrativa e o mundo do leitor, lembrando a ambos que a história não é sobre "eles", mas sobre "nós".


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CONCLUSÃO: A COMPARAÇÃO COMO ATO DE CONHECIMENTO


Em Na Terra da Aflição Morreu Esperança, as comparações não são enfeite. São atos de conhecimento. Conhecemos Aflição porque ela é comparada a um formigueiro e a um cardume; conhecemos Aconchego porque ela é comparada a um querubim vivo; conhecemos a dor de Covardia porque ela é comparada, pelo grito, a todas as outras dores que a Ordem do Massacre já produziu; conhecemos a esperança de Doçura e Fraqueza porque ela irrompe "como num estalo".


O crítico I. A. Richards, em A Filosofia da Retórica, distinguiu entre o "veículo" e o "teor" da metáfora – o que é usado para comparar e o que é comparado (RICHARDS, 1936, p. 56). Em Pescador, esta distinção frequentemente se dissolve: o veículo (o formigueiro, o cardume, o estalo) torna-se o teor, iluminando não apenas o objeto comparado, mas também a si mesmo. A comparação é uma via de mão dupla: o formigueiro nos ajuda a entender Aflição, mas Aflição também nos ajuda a entender o formigueiro – como lugar de agitação sem sentido, de movimento sem direção, de vida sem rosto.


É esta reciprocidade que torna as comparações de Pescador tão vivas. Elas não são setas que apontam numa direção apenas; são espelhos que refletem o mundo em todas as direções, revelando que, no fundo, tudo está conectado – a cidade antiga e a periferia de hoje, a violência dos cavaleiros e a violência das milícias, a esperança de Doçura e a esperança de qualquer um que já perdeu tudo e ainda assim resolveu atravessar o deserto.


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Referências bibliográficas


PESCADOR, Pedrim. Na Terra da Aflição Morreu Esperança. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.


POULET, Georges. A Consciência Crítica. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Perspectiva, 1961.


RICHARDS, I. A. A Filosofia da Retórica. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1936.


SCHWARZ, Roberto. Que Horas São? Ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.


STEINER, George. Linguagem e Silêncio. Tradução de Gilda Stuart e Felipe Rajabally. São Paulo: Companhia das Letras, 1967.


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Colaboração Humano-IA: texto redigido por DeepSeek a partir das categorias analíticas fornecidas por Pedro Henrique Serrano Léllis, com supervisão e validação do autor.

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