#EST_LEX – LÉXICO A palavra precisa: o vocabulário do biólogo na construção da alegoria em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
#EST_LEX – LÉXICO A palavra precisa: o vocabulário do biólogo na construção da alegoria em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
Nomear é conhecer: a precisão lexical como epistemologia narrativa
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A relação entre léxico e conhecimento é uma das questões mais antigas da tradição filosófica ocidental. Desde o Crátilo de Platão, onde se debate se os nomes são convencionais ou naturais, passando pela tradição bíblica em que Adão nomeia os animais como ato de domínio e reconhecimento, até a linguística moderna que, com Saussure, estabeleceu o caráter arbitrário do signo, a pergunta sobre a relação entre a palavra e a coisa nomeada nunca deixou de interpelar pensadores e artistas.
O crítico literário Erich Auerbach, em Mimesis, demonstrou como a escolha lexical não é mero ornamento estilístico, mas sim o próprio modo pelo qual o texto constrói sua relação com o real (AUERBACH, 1946). Cada palavra escolhida por um escritor carrega consigo não apenas um significado dicionarizado, mas toda uma história de usos, uma tradição de leituras, uma rede de associações que o leitor, mesmo inconscientemente, mobiliza ao ler.
Em Na Terra da Aflição Morreu Esperança, Pedrim Pescador opera uma escolha lexical que merece análise detida. Trata-se de um vocabulário que, à primeira vista, pode parecer simples ou mesmo bíblico em sua sobriedade, mas que, sob escrutínio, revela a presença estruturante da formação científica do autor. O biólogo que classifica, que distingue, que nomeia com precisão as espécies e os ecossistemas não desaparece quando Pescador se torna escritor – ao contrário, sua precisão taxonômica torna-se instrumento narrativo, modo específico de construir o mundo ficcional e de nele inscrever sentido.
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1. FUNDAMENTOS TEÓRICOS: LÉXICO, ESTILO, EPISTEME
A estilística moderna, desde os trabalhos de Charles Bally e Leo Spitzer, estabeleceu que o estudo do léxico não pode limitar-se à catalogação de vocabulário, mas deve investigar a função das escolhas lexicais na economia global da obra. O crítico francês Pierre Guiraud, em A Estilística, observou que "cada escritor possui um universo lexical que é, ao mesmo tempo, reflexo de sua época e expressão de sua singularidade" (GUIRAUD, 1954, p. 23). Este universo lexical não é apenas um conjunto de palavras, mas um sistema de significações que organiza a percepção do mundo ficcional.
Mais recentemente, a crítica literária de orientação cognitiva tem demonstrado que o léxico não é apenas veículo de significados, mas molde da percepção. As palavras que um escritor escolhe não apenas nomeiam coisas preexistentes, mas recortam o real de determinada maneira, destacam certos aspectos em detrimento de outros, constroem o mundo que o leitor irá habitar.
Em Pescador, esta função constitutiva do léxico é particularmente evidente. Sua precisão taxonômica – herança da formação em biologia – não é afetada exibicionismo, mas sim modo de conhecimento. O autor nomeia com exatidão porque, para ele, conhecer é nomear – e fazer o leitor conhecer é oferecer-lhe a palavra exata.
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2. A PRECISÃO TAXONÔMICA: O OLHAR DO BIÓLOGO
A primeira e mais evidente marca lexical da obra é a precisão com que o autor nomeia elementos da natureza. Observemos alguns exemplos:
"Em todo o vilarejo as famílias criavam diversos tipos de animais, cabritos, jumentos monteses, bisões do Himalaia e um sem número de plantas e aves raras, em especial pavões e faisões" (PESCADOR, 2024, p. 7).
O que um escritor sem formação científica chamaria simplesmente de "aves" ou "animais exóticos", Pescador especifica: pavões, faisões, bisões do Himalaia. Esta especificidade não é gratuita. Ela funda a credibilidade de Aconchego como lugar de prosperidade – não uma prosperidade vaga e abstrata, mas uma prosperidade concreta, feita de espécies identificáveis, de animais que o leitor pode visualizar, de uma biodiversidade que o biólogo sabe descrever.
"O território de Aconchego era dividido em quatro partes separadas por córregos que se uniam no brejo do vale. As partes mais altas das montanhas ao redor eram usadas para cultivar plantas frutíferas e aromáticas, enquanto que na planície brejosa raízes comestíveis, pasto e gado" (PESCADOR, 2024, p. 12).
Aqui, a precisão é geográfica e ecológica. O autor não descreve apenas "montanhas" e "vales", mas distingue as partes altas (cultivo de frutíferas e aromáticas) da planície brejosa (raízes, pasto, gado). Esta distinção revela um conhecimento de aptidão agrícola dos solos, de zoneamento ecológico, de uso sustentável do território – conhecimentos que só um biólogo ou um agrônomo possuiriam com tal naturalidade.
O crítico Antonio Candido, em seu estudo sobre a literatura brasileira, observou que "o regionalismo autêntico não é aquele que exibe o pitoresco, mas aquele que incorpora o saber local à estrutura da narrativa" (CANDIDO, 1959, p. 67). Em Pescador, poderíamos falar de um "biologismo autêntico": não a exibição de termos técnicos para impressionar, mas a incorporação do saber biológico à própria textura do narrar.
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3. A NOMEAÇÃO DOS ALIMENTOS: COMENSALIDADE E PRECISÃO
Outro campo lexical em que a precisão de Pescador se destaca é o da alimentação. As refeições em Na Terra da Aflição... são descritas com um detalhismo que vai muito além do pitoresco:
"Prepararam a tradicional sopa de raízes com queijo e muita pimenta. Tomaram um pouco de vinho" (PESCADOR, 2024, p. 23).
"Prepararam alguns pratos típicos: sementes ensopadas, cordeiro com ervas finas e pão árabe. Iraldo e Maustratos prepararam uma travessa de carne crua com nozes, kibe e hortelã" (PESCADOR, 2024, p. 32).
"Doçura tirou peças de tapete para forrar a tenda, almofadas, preparou a tradicional sopa de raízes com queijo e muita pimenta" (PESCADOR, 2024, p. 23).
A repetição da "sopa de raízes" ao longo da narrativa não é acidental – ela estabelece um motivo alimentar que identifica a família de Aconchego, sua tradição culinária, sua identidade cultural. Mas o que importa, para nossa análise, é a precisão: não é "sopa" apenas, mas "sopa de raízes" – e sabemos que raízes, na tradição agrícola, são alimentos de subsistência, diferentes dos grãos ou das carnes.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss, em O Cru e o Cozido, demonstrou como as práticas alimentares são sistemas de classificação que revelam estruturas profundas da cultura (LÉVI-STRAUSS, 1964). A oposição entre o "cordeiro com ervas finas" de Aconchego e a "carne crua com nozes, kibe e hortelã" de Aflição não é apenas culinária – é simbólica. O cozido (cultura, transformação, aconchego) opõe-se ao cru (natureza, imediatismo, aflição). A precisão lexical de Pescador permite que esta oposição se estabeleça com clareza, sem que o autor precise explicá-la.
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4. O LÉXICO DO SAGRADO: ENTRE O ARCAICO E O PRECISO
A descrição do santuário do Deus Eterno é outro momento em que a precisão lexical de Pescador se revela significativa:
"Um tapete colorido de lã de ovelhas cobria todo o chão. Um tacho com água servia para lavarem as mãos e o rosto, enquanto em outro tacho eram dispensadas brasas e sobre elas ervas aromáticas ao longo das orações. No altar, ao fundo do santuário, somente uma mesa baixa coberta por um tecido" (PESCADOR, 2024, p. 18).
A escolha de "tacho" (e não "bacia" ou "recipiente") é significativa. "Tacho" é palavra de origem portuguesa, presente no vocabulário doméstico brasileiro desde o período colonial, associada à culinária e aos afazeres domésticos. Ao utilizá-la no contexto sagrado, Pescador aproxima o divino do cotidiano, o altar da cozinha, a oração do preparo dos alimentos. Esta escolha lexical é, em si mesma, uma declaração teológica: o sagrado não está apartado da vida comum – habita os mesmos utensílios, os mesmos espaços.
O termo "brasas" (e não "carvão" ou "fogo") também é preciso. Brasas são o fogo domesticado, o fogo que já queimou e agora aquece sem destruir – imagem adequada para um Deus que "não requer sacrifícios" mas acolhe as oferendas sinceras.
O crítico literário Northrop Frye, em O Código dos Códigos, observou que "a linguagem religiosa opera por deslocamento – palavras do cotidiano são transferidas para o contexto sagrado, onde adquirem nova densidade" (FRYE, 1981, p. 34). Em Pescador, este deslocamento é operado com precisão: as palavras são as mesmas da vida comum, mas o contexto as investe de nova significação.
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5. O LÉXICO DA VIOLÊNCIA: NOMEAR SEM EUFEMISMO
Um dos aspectos mais notáveis do léxico de Pescador é a maneira como ele nomeia a violência. Em uma tradição literária que frequentemente recorre ao eufemismo ou à elipse para tratar do horror, o autor opta pela nomeação direta:
"Covardia foi espancada, muito agredida, teve os cabelos e sobrancelhas cortados e em seguida foi estuprada coletivamente" (PESCADOR, 2024, p. 84).
A palavra "estuprada" é dita. Não há rodeios, não há "violentada" (que poderia ser ambiguo), não há "abusada" (que atenua). A violência sexual é nomeada com a palavra que lhe corresponde, sem pudor falso, sem mediação. Esta escolha lexical é ética antes de ser estética: nomear a violência é reconhecê-la, é testemunhá-la, é recusar-se a participar do silenciamento que a cultura do estupro impõe às vítimas.
A teórica feminista Judith Herman, em Trauma e Recuperação, observa que "a primeira condição para a cura do trauma é que a vítima possa nomear o que lhe aconteceu, em um ambiente que acredite em sua palavra" (HERMAN, 1992, p. 67). O narrador de Pescador, ao nomear sem eufemismo o estupro de Covardia, testemunha em favor da vítima, recusando-se a participar do pacto de silêncio que protege os agressores.
O mesmo ocorre com a morte dos irmãos: "golpes cortantes que lhes foram fatais" (PESCADOR, 2024, p. 84). Não se diz apenas "foram mortos", mas especifica-se o modo – golpes, corte, facões, cimitarres. A violência é nomeada em sua materialidade, em sua crueza, sem a anestesia que a linguagem abstrata poderia proporcionar.
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6. O LÉXICO DO CHEIRO: A PRECISÃO DO OLFATO
Conforme desenvolvido em #SEN_OLF, o léxico olfativo de Pescador é particularmente significativo. Observemos as escolhas:
"O vilarejo cheirava a orvalho matinal, um peculiar cheiro, exótico, marcado por tons de cravo e canela" (PESCADOR, 2024, p. 7).
"era perto do meio dia quando um forte cheiro de chorume despertou a atenção de Força" (PESCADOR, 2024, p. 23).
"um desagradável odor de peixe podre" (PESCADOR, 2024, p. 34).
"perfumada com seu único aroma de lavanda" (PESCADOR, 2024, p. 43).
A precisão aqui é notável: não se diz apenas "cheiro bom" ou "cheiro ruim", mas especifica-se a natureza do aroma – cravo, canela, chorume, peixe podre, lavanda. Cada um destes cheiros carrega uma carga semântica específica: o cravo e a canela remetem ao exótico, ao oriental, ao precioso; o chorume remete ao lixo, à decomposição, à pobreza; o peixe podre remete ao comércio, ao trabalho, à precariedade; a lavanda remete ao cuidado, à feminilidade, à delicadeza.
O historiador Alain Corbin, em Saberes e Odores, demonstrou como "a percepção olfativa é socialmente construída e historicamente variável" (CORBIN, 1982, p. 12). Em Pescador, esta construção social do olfato é deliberadamente utilizada como marcador de classe, de pertencimento, de identidade. O cheiro não é apenas sensação – é diagnóstico.
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7. O LÉXICO DO COTIDIANO: A CONSTRUÇÃO DO REALISMO
Paradoxalmente, ao lado da precisão técnica, Pescador utiliza um léxico deliberadamente coloquial em certas passagens, criando um contraste que é, ele mesmo, significativo:
"blá blá blá" (PESCADOR, 2024, p. 29).
"de pau-pode" (PESCADOR, 2024, p. 83).
"quase um baile do Mandela" (PESCADOR, 2024, p. 82).
Estas inserções coloquiais, que poderiam ser vistas como quebra de tom, são na verdade estratégias de ancoragem do texto no contemporâneo. O autor que escreve uma parábola bíblica não quer que o leitor se perca no passado – quer que ele reconheça que Aflição é aqui e agora, que a violência descrita é a violência que nos cerca, que a "Ordem do Massacre" são as milícias que conhecemos dos noticiários.
O crítico Roberto Schwarz, em Ao Vencedor as Batatas, observou que "a literatura brasileira frequentemente opera por deslocamento – fala do passado para falar do presente, fala do rural para falar do urbano" (SCHWARZ, 1977, p. 23). O léxico coloquial de Pescador cumpre esta função: ao inserir expressões contemporâneas em uma narrativa de ambientação antiga, ele força o leitor a reconhecer a contemporaneidade do que lê.
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8. A FUNÇÃO EPISTEMOLÓGICA DO LÉXICO
O que une estas diferentes dimensões do léxico de Pescador é uma função epistemológica comum: nomear com precisão é conhecer – e fazer o leitor conhecer.
O biólogo que classifica espécies, o antropólogo que descreve rituais, o teólogo que distingue concepções de sagrado, o testemunha que nomeia a violência – todos estes papéis convergem para um mesmo ponto: a convicção de que a palavra exata é a única capaz de dar conta da complexidade do real.
O filósofo Hans-Georg Gadamer, em Verdade e Método, argumentou que "a linguagem não é apenas um instrumento de comunicação, mas o medium no qual compreendemos o mundo" (GADAMER, 1960, p. 78). O léxico de Pescador é este medium: através dele, autor e leitor compreendem juntos a natureza de Aconchego e Aflição, a violência de Aflição e a resistência de Doçura e Fraqueza, a morte da esperança e sua promessa de renascimento.
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9. CONCLUSÃO: A PALAVRA EXATA
Em Na Terra da Aflição Morreu Esperança, o léxico não é ornamento – é instrumento de conhecimento. A precisão taxonômica do biólogo, a nomeação direta da violência, a especificidade dos cheiros e dos sabores, o coloquialismo estratégico, a escolha dos termos sagrados – tudo converge para uma mesma operação: dar a cada coisa o nome que lhe corresponde.
Esta operação, que pode parecer simples, é na verdade uma das mais exigentes da literatura. Exige do autor um conhecimento profundo do que nomeia – e Pescador, formado em biologia, sobrevivente de suas próprias travessias, capixaba que conhece os cheiros de sua terra e os fedores de suas periferias, tem este conhecimento. Seu léxico é, afinal, seu testemunho – a prova de que ele esteve lá, de que viu, de que sentiu, de que pode, por isso, nomear.
E é neste nomear que o leitor encontra não apenas uma história, mas um mundo – um mundo construído com palavras tão precisas que parecem tornar-se, elas mesmas, a própria coisa nomeada.
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Referências bibliográficas
AUERBACH, Erich. Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental. Tradução de George Bernard Sperber. São Paulo: Perspectiva, 1946.
CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1959.
CORBIN, Alain. Saberes e Odores: O Olfato e o Imaginário Social nos Séculos XVIII e XIX. Tradução de Ana Lúcia de Oliveira. São Paulo: Companhia das Letras, 1982.
FRYE, Northrop. O Código dos Códigos: A Bíblia e a Literatura. Tradução de Flávio Aguiar. São Paulo: Boitempo, 1981.
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 1960.
GUIRAUD, Pierre. A Estilística. Tradução de Miguel Maillet. São Paulo: Mestre Jou, 1954.
HERMAN, Judith. Trauma e Recuperação: O Legado da Violência. Tradução de Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artmed, 1992.
LÉVI-STRAUSS, Claude. O Cru e o Cozido. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cosac Naify, 1964.
PESCADOR, Pedrim. Na Terra da Aflição Morreu Esperança. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.
SCHWARZ, Roberto. Ao Vencedor as Batatas: Forma Literária e Processo Social nos Inícios do Romance Brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
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Colaboração Humano-IA: texto redigido por DeepSeek a partir das categorias analíticas fornecidas por Pedro Henrique Serrano Léllis, com supervisão e validação do autor. Este artigo segue as normas da ABNT para publicações científicas e foi estruturado para submissão a periódicos acadêmicos na área de Estilística e Teoria Literária.
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