#INT_MID – MIDRASH O silêncio que fala: preenchimento criativo das lacunas bíblicas em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
INT_MID – MIDRASH O silêncio que fala: preenchimento criativo das lacunas bíblicas em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
Entre o que a Bíblia diz e o que ela cala: o espaço da imaginação
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Há um antigo ditado rabínico que diz: "Deus deu a Torá escrita e a Torá oral. A escrita é para todos; a oral, para quem sabe escutar o que não foi dito". Este ditado aponta para algo fundamental na tradição judaica: o texto sagrado não é completo. Entre uma palavra e outra, entre um versículo e seu vizinho, há espaços vazios – e são estes espaços que o intérprete é chamado a preencher.
Esta prática de preenchimento tem um nome: midrash.
O midrash não é comentário no sentido ocidental – não explica o que o texto já disse. É, antes, uma expansão – contar o que o texto não contou, imaginar o que ele silenciou, dar voz a quem nele permanece mudo. O midrashista não se pergunta apenas "o que este versículo significa?", mas também "o que aconteceu antes?", "o que esta personagem sentiu?", "o que poderia ter sido dito e não foi?".
Em Na Terra da Aflição Morreu Esperança, Pedrim Pescador assume a posição do midrashista. Seu ponto de partida é o Livro de Rute – quatro breves capítulos que contam a história de Noemi, Rute e Boaz. Mas entre as linhas deste texto, Pescador encontra um mundo inteiro a ser explorado: a terra de Moabe, a família de Rute, a vida cotidiana no exílio, os deuses que ali se adoravam, os rituais que ali se praticavam. A Bíblia não diz nada disto. Pescador, então, diz – com a liberdade de quem sabe que o silêncio das escrituras não é proibição, mas convite.
O rabino e filósofo Abraham Joshua Heschel, em Deus em Busca do Homem, observou que "a Bíblia não é apenas um livro sobre o passado, mas um espelho no qual cada geração pode ver seu próprio rosto" (HESCHEL, 1955, p. 34). Pescador olha para o espelho do Livro de Rute e vê não apenas o rosto de Noemi, mas também o de Doçura; não apenas o de Rute, mas também o de Fraqueza; não apenas Moabe, mas também a Terra de Aflição – que é, afinal, tão moabita quanto capixaba, tão antiga quanto contemporânea.
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O QUE É MIDRASH? UMA BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO
A palavra "midrash" deriva do hebraico darash, que significa "buscar", "investigar", "interpretar". Na tradição judaica, o midrash designa tanto um método de interpretação quanto o corpo literário produzido por este método. Sua característica fundamental é a liberdade criativa dentro dos limites do texto sagrado.
O estudioso Barry Holtz, em Midrash: Leitura e Interpretação, explica:
"O midrash não pretende substituir o texto bíblico, nem competir com ele. Pretende, sim, aproximá-lo do leitor, tornando-o mais vivo, mais presente, mais aplicável à vida cotidiana. O midrashista é um contador de histórias que respeita a história original, mas ousa imaginar o que ela não conta" (HOLTZ, 1984, p. 23).
Esta definição se aplica perfeitamente a Pescador. Seu livro não substitui Rute, não compete com Rute – aproxima Rute. O leitor que conhece a narrativa bíblica, ao ler Na Terra da Aflição..., não a abandona, mas a reencontra – mais densa, mais colorida, mais humana.
Há, porém, uma diferença importante. O midrash tradicional era produzido no interior de uma comunidade de fé e para ela. Pescador escreve para um público mais amplo – que pode incluir crentes e não crentes, judeus, cristãos e ateus. Seu midrash, por isso, precisa funcionar também fora do contexto religioso. E funciona. O leitor que nunca abriu uma Bíblia pode ler Na Terra da Aflição... como pura ficção e encontrar nela satisfação plena. O midrash, aqui, é uma camada a mais – não um pré-requisito.
O crítico literário George Steiner, em Depois de Babel, observou que "toda leitura é, em certo sentido, uma tradução – e toda tradução é uma forma de midrash" (STEINER, 1975, p. 45). Pescador traduz Rute para a linguagem do romance contemporâneo. E nesta tradução, algo novo emerge.
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O QUE A BÍBLIA NÃO DIZ: AS LACUNAS DO LIVRO DE RUTE
Para entender o trabalho de Pescador, é preciso primeiro entender o que a Bíblia não diz sobre a história de Rute. A lista é surpreendentemente longa:
1. Não diz como era a terra de Moabe. Sabemos apenas que era um lugar estrangeiro, para onde uma família israelita emigrou por causa da fome. Nada sobre sua geografia, sua cultura, sua organização social.
2. Não diz quem era a família de Rute e Orfa. Elas simplesmente aparecem como mulheres moabitas com quem os filhos de Noemi se casaram. Não têm pai, não têm mãe, não têm história.
3. Não diz como era a vida cotidiana no exílio. O texto salta dos casamentos para as mortes, e logo para a decisão de retornar. Os anos intermediários são um vazio.
4. Não diz quais deuses os moabitas adoravam. Sabemos, por outras passagens bíblicas, que Moabe era associado ao deus Quemós – mas o Livro de Rute não menciona isto.
5. Não diz o que Rute sentia ao deixar sua terra. Sua declaração a Noemi é belíssima, mas é uma declaração de lealdade, não um relato de seus sentimentos íntimos.
6. Não diz como Noemi vivia seu luto. O texto diz que ela ficou "amarga", mas não detalha esta amargura.
7. Não diz o que aconteceu com Orfa depois que ela ficou. Ela simplesmente desaparece da narrativa.
Cada uma destas lacunas é uma porta de entrada para o midrash. Pescador entra por todas elas.
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A TERRA DE AFLIÇÃO: PREENCHENDO A GEOGRAFIA
A primeira e mais óbvia contribuição de Pescador é a criação da Terra de Aflição como contraponto a Aconchego. Moabe, na Bíblia, é apenas um nome. Em Pescador, ganha corpo:
"Aflição era uma cidade baixa, plana, construída sobre um platô de arenito e calcário. A única parte alta da cidade era uma rocha que beirava e invadia o mar. Era o Alto da Penha da Morte, um alto dedicado ao deus Carrasco, a entidade local, de onde as pessoas jogavam oferendas, dinheiro, flores, gente morta e até mesmo algumas pessoas vivas se jogavam de lá de cima também" (PESCADOR, 2024, p. 37).
Esta descrição não está na Bíblia – mas poderia estar. Pescador não inventa arbitrariamente: ele conjectura a partir do que se sabe sobre as religiões cananeias, sobre os cultos de fertilidade, sobre as práticas sacrificiais do antigo Oriente Médio. Sua invenção é informada – e por isso, soa verdadeira.
O mesmo ocorre com a descrição da Festa da Primavera:
"Quando os primeiros raios de sol irromperam por de trás do casal real sentado na pracinha, as bailarinas despiram-se totalmente, juntamente com a multidão e todos começaram a se acariciar nus, sem regras ou limites, uma verdadeira orgia a céu aberto" (PESCADOR, 2024, p. 61-62).
A orgia e a autoflagelação que se seguem são extrapolações – mas extrapolações baseadas no que se conhece dos cultos de fertilidade e dos rituais de renovação cíclica. Pescador não está inventando do nada: está preenchendo o vazio com imagens que a história das religiões torna plausíveis.
O historiador das religiões Mircea Eliade, em O Sagrado e o Profano, observou que "os rituais de renovação periódica frequentemente envolvem a abolição temporária das normas sociais e a volta ao caos primordial, simbolizado pela orgia" (ELIADE, 1957, p. 56). A Festa da Primavera de Pescador encaixa-se perfeitamente nesta descrição – e por isso, mesmo sendo invenção, soa como verdade antropológica.
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A FAMÍLIA DE RUTE: IRALDO, MAUSTRATOS, COVARDIA
Outra lacuna fundamental que Pescador preenche é a família de Rute. A Bíblia não diz quem eram seus pais, como foi sua infância, que relações mantinha com seus parentes. Pescador cria Iraldo, Maustratos, Covardia – e ao fazê-lo, dá a Fraqueza (sua Rute) uma história, um contexto, uma razão para ser quem é.
Iraldo é o pai violento:
"Iraldo era um homem de baixa estatura, comerciante, nem rico nem pobre, mas constantemente estressado e explosivo. Era ignorante com a mulher e suas duas filhas, Fraqueza e Covardia. Era muito duro e intransigente com tudo. Controlador, tudo tinha que ser do jeito dele" (PESCADOR, 2024, p. 31).
Maustratos é a mãe amargurada:
"Maustratos, casada com Iraldo, era aquele tipo de mulher richosa, fofoqueira, também controladora e muito ciumenta. Não teve mãe nem pai, casou-se muito cedo e era muito amargurada" (PESCADOR, 2024, p. 32).
Covardia é a irmã que internalizou a violência:
"Era sensual, hiperativa, dava risadas altas e escandalosas. Desejadas por muitos homens sabia se defender deles por meio de escândalos, tapas mentiras e gritos" (PESCADOR, 2024, p. 35).
Este retrato de família disfuncional não está na Bíblia – mas explica por que Fraqueza (Rute) está tão disposta a deixar sua terra. Não é apenas lealdade a Noemi; é também fuga – fuga de um ambiente onde era humilhada, diminuída, maltratada. A declaração de Rute, no original bíblico, ganha nova profundidade quando lida à luz deste contexto: Rute não escolhe apenas seguir Noemi – ela escolhe abandonar uma família que a destruía.
O midrash, aqui, cumpre sua função mais nobre: humanizar a personagem, torná-la mais compreensível, mais próxima, mais real. A Rute bíblica é um modelo de virtude; a Fraqueza de Pescador é uma pessoa – com dores, medos, esperanças, contradições.
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A VIDA COTIDIANA NO EXÍLIO: O MERCADO, AS RELAÇÕES, OS CONFLITOS
A Bíblia nada diz sobre como Noemi e sua família viveram em Moabe. Pescador, mais uma vez, preenche a lacuna:
"Esperança, Doçura, Força e Coragem acostumaram-se com o local. Não estava tão ruim assim. Acordavam cedo, abriam o mercado e passavam o dia todo atendendo a diversos clientes" (PESCADOR, 2024, p. 34).
O mercado é o centro da vida cotidiana. É ali que os personagens trabalham, se relacionam, constroem vínculos. É ali que Doçura explode contra Covardia, que Força observa Fraqueza na janela, que a família tenta reconstruir a vida em terra estrangeira.
Pescador descreve este cotidiano com precisão etnográfica:
"De frente do estabelecimento viam a peixaria de Iraldo, de onde sempre ao amanhecer e ao anoitecer com a brisa que passava vinha um desagradável odor de peixe podre" (PESCADOR, 2024, p. 34).
O cheiro de peixe podre – tão capixaba, tão de cidade litorânea – torna-se um marcador da experiência do exílio. Doçura sente o cheiro todas as manhãs, e todas as manhãs lembra-se de que não está em casa. O detalhe sensorial, que a Bíblia jamais incluiria, é o que torna a narrativa de Pescador tão viva.
O crítico Erich Auerbach, em Mimesis, comparou a narrativa bíblica à homérica e observou que a Bíblia tende a silenciar sobre o cotidiano, deixando apenas o essencial para a fé (AUERBACH, 1946, p. 23). Pescador faz o caminho inverso: restaura o cotidiano, devolve aos personagens a textura da vida comum – e ao fazê-lo, os torna mais humanos, mais próximos, mais capazes de falar ao leitor contemporâneo.
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O QUE RUTE SENTIA: A INTERIORIDADE DE FRAQUEZA
Talvez a lacuna mais significativa que Pescador preenche seja a interioridade de Rute. A Bíblia registra suas palavras, mas não seus sentimentos. Pescador, com acesso à consciência de Fraqueza, nos mostra o que ela pensa e sente em momentos cruciais.
No início, antes de conhecer Força:
"Fraqueza precisava viver, precisava respirar, precisava ver o sol, precisava quase que nascer de novo. Mas não sabia como nem se valia a pena" (PESCADOR, 2024, p. 44).
A repetição de "precisava" enfatiza a necessidade – mas também a impotência. Fraqueza precisa, mas não sabe como. É a condição de quem foi tão oprimida que perdeu a capacidade de agir.
Durante o namoro com Força:
"Serena, calma, tranquila. Mais nova que Covardia, apanhava muito da irmã mais velha e ainda mais da sua mãe, que em muito fazia juz ao nome de Maustratos. Não queria ser como elas" (PESCADOR, 2024, p. 43).
O desejo de "não querer ser como elas" é a semente da transformação. Fraqueza não apenas sofre – ela deseja outra coisa, almeja outra vida. Este desejo é o que a torna capaz de amar Força e, mais tarde, de se converter ao Deus Eterno.
No momento da conversão:
"Fraqueza entrou no santuário do Eterno e debruçando-se chorou. Segurou o pano que descia do altar sem imagem. Chorou, e chorou e chorou, lembrando-se de como foi devota do deus Carrasco e só recebeu tormento" (PESCADOR, 2024, p. 74-75).
O choro de Fraqueza é um choro de reconhecimento – reconhece que sua vida anterior foi um engano, que os deuses que servia só lhe deram dor, que o Deus de Noemi é diferente. Este reconhecimento não está na Bíblia, mas é perfeitamente coerente com ela. O midrash, aqui, explicita o que o texto sagrado apenas insinua.
A teóloga feminista Phyllis Trible, em Textos de Terror, observou que "as mulheres na Bíblia frequentemente têm suas vozes silenciadas – cabe ao leitor contemporâneo restaurar estas vozes" (TRIBLE, 1984, p. 34). Pescador restaura a voz de Rute. Sua Fraqueza fala, sente, deseja, chora, escolhe – é uma mulher de interioridade, não apenas uma figura alegórica.
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ORFA: A COVARDIA QUE FICOU
Uma das lacunas mais comoventes do Livro de Rute é o destino de Orfa. Ela beija Noemi, chora, mas decide ficar em Moabe. Depois disso, desaparece. O que aconteceu com ela? Como foi sua vida? Pescador responde com a tragédia de Covardia.
Covardia, que fica em Aflição, é estuprada, perde o marido, perde o cunhado, adoece de depressão. Seu destino é o avesso do destino de Fraqueza. Enquanto uma atravessa o deserto e renasce, a outra definha na terra que escolheu.
Esta escolha narrativa é significativa. Pescador não idealiza: ficar também é uma opção, mas uma opção que pode levar à destruição. Covardia paga o preço de ter permanecido onde a violência é lei. Sua tragédia é o contraponto necessário à redenção de Fraqueza – e também um aviso sobre o que aguarda aqueles que não conseguem romper com o ciclo.
O midrash, aqui, cumpre uma função teológica importante: mostra que a salvação não é automática, que a escolha de Rute não era a única possível, que Orfa também tinha sua história – mesmo que uma história de dor. Ao dar a Covardia esta história, Pescador resgata do esquecimento uma figura que a tradição deixou à margem.
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O QUE É FIDELIDADE NO MIDRASH?
Uma pergunta inevitável: até onde Pescador pode ir sem trair o texto bíblico? Onde termina o midrash e começa a ficção pura?
A resposta está na intenção. O midrash autêntico não pretende competir com a Bíblia, nem substituí-la, nem corrigi-la. Pretende, como disse Holtz, aproximá-la do leitor. Pescador nunca contradiz o Livro de Rute: suas invenções poderiam, em tese, ter acontecido. Nada no que ele escreve nega o que a Bíblia afirma.
Mais que isso: suas invenções iluminam o texto bíblico. Depois de ler Na Terra da Aflição..., o leitor retorna a Rute e o vê com outros olhos. A terra de Moabe, que antes era apenas um nome, agora tem cheiro, cor, violência. A família de Rute, que antes era apenas uma referência, agora tem rostos, nomes, histórias. A decisão de Rute, que antes podia parecer abstrata, agora se revela como escolha entre vida e morte.
O rabino Adin Steinsaltz, em A Torá Viva, observou que "o midrash não é um acréscimo à Torá, mas uma revelação do que já estava nela, ainda que oculto" (STEINSALTZ, 1980, p. 56). Pescador revela. Sua obra não acrescenta algo estranho a Rute – desenterra o que já estava lá, à espera de quem soubesse ver.
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O MIDRASH COMO RESISTÊNCIA
Há ainda uma dimensão política no midrash de Pescador. Ao dar voz a Fraqueza, ao contar a história de Covardia, ao mostrar a violência doméstica que a Bíblia silencia, Pescador pratica o que a teóloga Elisabeth Schüssler Fiorenza chamou de "hermenêutica da suspeita" – uma leitura que desconfia das versões oficiais e busca recuperar as vozes que foram caladas (FIORENZA, 1983, p. 23).
A Bíblia foi escrita em uma sociedade patriarcal. Suas narrativas refletem esta estrutura. O midrash de Pescador, sem negar o texto, problematiza seus silêncios. Pergunta: por que não sabemos o nome da mãe de Rute? Por que não sabemos o que ela sentia? Por que sua irmã é simplesmente abandonada à margem da narrativa?
Estas perguntas não têm resposta no texto sagrado. Mas o midrash as mantém vivas – e ao mantê-las vivas, resiste ao esquecimento que a história oficial impõe aos vencidos.
O crítico Walter Benjamin, em suas teses "Sobre o Conceito de História", observou que "articular historicamente o passado não significa conhecê-lo 'como ele de fato foi', mas apropriar-se de uma reminiscência tal como ela relampeja no momento de perigo" (BENJAMIN, 1940, p. 7). Pescador apropria-se da reminiscência de Rute e a faz relampejar em nosso tempo – um tempo em que mulheres ainda são violentadas, ainda precisam escolher entre ficar e partir, ainda buscam deuses que não exijam sangue.
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O MIDRASH COMO ESPERANÇA
No final de Na Terra da Aflição..., Doçura e Fraqueza entram em Aconchego. O midrash se completa – mas não se fecha. Porque o segundo volume, Na Terra do Aconchego Esperança Renasceu, está por vir. E ali, novas lacunas serão preenchidas.
O que aconteceu com Rute e Noemi depois que chegaram a Belém? A Bíblia conta: Rute vai aos campos de Boaz, Boaz a resgata, eles se casam, nasce Obede. Mas entre a chegada e o encontro com Boaz, há um intervalo – dias, semanas, talvez meses – que o texto não cobre. O que Rute fez nesse tempo? Como foi recebida? Como viveu?
O segundo volume de Pescador promete responder. E o ciclo do midrash continuará – porque o texto sagrado é inesgotável, e sempre haverá novas lacunas a preencher, novas vozes a restaurar, novas histórias a contar.
O teólogo Paul Ricoeur, em A Hermenêutica Bíblica, observou que "a interpretação é um processo infinito, porque o texto é sempre mais rico do que qualquer leitura" (RICOEUR, 1975, p. 67). Pescador sabe disto. Seu midrash não é o último sobre Rute – é apenas mais um, na longa cadeia de leituras que mantêm o texto vivo.
E manter o texto vivo é, afinal, a função do midrash. Não explicar, não substituir, não competir – mas continuar. Fazer com que a história de Rute continue a ser contada, em novas línguas, para novos públicos, em novos tempos. Pescador faz isto com maestria. Seu livro é, ao mesmo tempo, um ato de fé na tradição e um ato de confiança na imaginação – e é desta aliança que nasce o melhor midrash.
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O QUE O MIDRASH REVELA SOBRE PEDRIM PESCADOR
O midrash de Pescador revela, antes de tudo, um escritor que ama o texto bíblico. Não se brinca com o que não se ama; não se passa anos imaginando a vida de personagens secundárias se elas não importam. Pescador importa-se. Rute importa. Noemi importa. Até Orfa importa.
Revela também um escritor que confia na imaginação – mas uma imaginação disciplinada, informada, que não voa sem rumo. Suas invenções são plausíveis, coerentes, enraizadas no que se sabe sobre o mundo antigo e no que se intui sobre a alma humana.
Revela, finalmente, um escritor que acredita que a literatura pode ser mais do que entretenimento – pode ser revelação, pode ser cura, pode ser encontro com o sagrado. Seu midrash não é apenas um exercício intelectual; é uma prática espiritual, um modo de habitar o texto e de deixar que o texto o habite.
O rabino Lawrence Kushner, em O Livro dos Milagres, escreveu: "Quando contamos histórias sobre o sagrado, o sagrado se torna presente entre nós" (KUSHNER, 1985, p. 12). Pescador conta histórias sobre Rute – e ao contá-las, torna Rute presente, torna Noemi presente, torna o Deus de ambas presente. Seu livro é um milagre modesto, mas real: o milagre de fazer o antigo falar ao novo, o distante falar ao próximo, o sagrado falar ao humano.
E é por isso que seu midrash importa.
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Referências bibliográficas
AUERBACH, Erich. Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental. Tradução de George Bernard Sperber. São Paulo: Perspectiva, 1946.
BENJAMIN, Walter. "Sobre o Conceito de História". In: Obras Escolhidas I. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1940.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1957.
FIORENZA, Elisabeth Schüssler. Em Memória Dela: Uma Reconstrução Teológico-Feminista das Origens Cristãs. Tradução de Maria Cecília de M. Duprat. São Paulo: Paulinas, 1983.
HESCHEL, Abraham Joshua. Deus em Busca do Homem. Tradução de Jacob Guinsburg. São Paulo: Paulinas, 1955.
HOLTZ, Barry. Midrash: Leitura e Interpretação. Tradução de J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1984.
KUSHNER, Lawrence. O Livro dos Milagres. Tradução de Adolpho Wasserman. São Paulo: Cultrix, 1985.
PESCADOR, Pedrim. Na Terra da Aflição Morreu Esperança. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.
RICOEUR, Paul. A Hermenêutica Bíblica. Tradução de Paulo Meneses. São Paulo: Loyola, 1975.
STEINER, George. Depois de Babel: Questões de Linguagem e Tradução. Tradução de Carlos Alberto Faraco. Curitiba: Editora da UFPR, 1975.
STEINSALTZ, Adin. A Torá Viva. Tradução de J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1980.
TRIBLE, Phyllis. Textos de Terror: Lições Literárias e Feministas sobre Narrativas Bíblicas. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. São Paulo: Paulinas, 1984.
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Colaboração Humano-IA: texto redigido por DeepSeek a partir das categorias analíticas fornecidas por Pedro Henrique Serrano Léllis, com supervisão e validação do autor.
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