#MOR_TIT – MORTIFICAÇÃO DO TÍTULO O título como personagem: a esperança que morre e promete renascer em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
#MOR_TIT – MORTIFICAÇÃO DO TÍTULO O título como personagem: a esperança que morre e promete renascer em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
A palavra que anuncia e esconde: hermenêutica do título na economia narrativa
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Há títulos que nomeiam, títulos que descrevem, títulos que provocam. Raros são os títulos que protagonizam – que ingressam na economia narrativa como personagens de pleno direito, com arco próprio, densidade simbólica e função estruturante. É o caso de Na Terra da Aflição Morreu Esperança, de Pedrim Pescador, obra cujo título não se limita a anunciar o conteúdo, mas encena o drama central da narrativa: a morte de uma esperança personificada e a promessa, inscrita na própria estrutura da frase, de que esta morte não é definitiva.
A crítica literária, desde os formalistas russos, reconhece o título como "zona fronteiriça" entre o texto e o mundo, primeiro elemento a ser lido e último a ser plenamente compreendido. Genette, em Seuils, dedicou atenção especial a este "limiar" que "orienta a interpretação sem jamais determiná-la completamente" (GENETTE, 1987, p. 76). O título de Pescador, contudo, vai além da função orientadora: ele condensa alegoricamente a totalidade da narrativa, funcionando como uma síntese profética que o leitor apenas compreenderá ao final da travessia.
A primeira camada de significação é a mais evidente: "Esperança" é o nome do patriarca, morto em naufrágio no capítulo 11. A frase "morreu Esperança" é, neste nível, uma informação biográfica: um homem chamado Esperança faleceu em terra estrangeira. O leitor que acompanha a narrativa desde o início sabe que Esperança era "um dos homens mais prósperos do vilarejo" (PESCADOR, 2024, p. 10), pai de Força e Coragem, marido de Doçura. Sua morte, portanto, é o primeiro golpe na estrutura familiar, a primeira fissura no mundo de Aconchego transplantado para Aflição.
A segunda camada, contudo, revela a operação alegórica: Esperança não é apenas um nome – é uma virtude teologal, uma das três que "permanecem" (fé, esperança, caridade), segundo Paulo de Tarso. Quando Esperança morre, é a própria esperança que morre na Terra da Aflição. O título, assim, funciona como um diagnóstico existencial: naquele território de violência, idolatria e competição, a esperança não pode sobreviver. Ela morre como morrem os justos, como morrem os sonhos, como morre a possibilidade de futuro.
O filósofo Gabriel Marcel, em Homo Viator, distinguiu a esperança da mera expectativa: "A esperança é um mistério, não um problema; ela se situa para além de todo cálculo, de toda previsão, de toda programação" (MARCEL, 1945, p. 67). A morte de Esperança, neste sentido, não é apenas a morte de um homem – é a morte da própria possibilidade de esperar em Aflição. Doçura, ao longo da narrativa, luta contra esta morte, recorrendo ao santuário para reavivar a chama que o título já declarou extinta.
A terceira camada é temporal e sintática. O título afirma que "morreu Esperança" – mas não afirma que a esperança não pode renascer. A frase é enunciada no pretérito perfeito, indicando uma ação concluída, mas não estabelece seu alcance definitivo. Esperança morreu na Terra da Aflição. E se as personagens retornarem a Aconchego? E se a esperança puder ser reencontrada fora do território da morte? É precisamente esta possibilidade que o título deixa em aberto – um aberto que o segundo volume, Na Terra do Aconchego Esperança Renasceu, virá preencher.
O teólogo Jürgen Moltmann, em sua Teologia da Esperança, argumentou que "a esperança cristã não é uma fuga do mundo, mas a força que move o mundo em direção ao futuro prometido" (MOLTMANN, 1964, p. 21). A estrutura diptíquica concebida por Pescador – um volume sobre a morte, outro sobre o renascimento – encena precisamente este movimento: a esperança precisa morrer (na aflição) para poder renascer (no aconchego). Não há ressurreição sem cruz, não há Páscoa sem Sexta-Feira Santa.
A quarta camada é a mais sutil e, talvez, a mais original: o título personifica-se ao longo da narrativa. Quando Doçura, diante das sucessivas perdas, repete para si mesma "esperança, força e coragem" (PESCADOR, 2024, p. 16), ela está invocando não apenas virtudes abstratas, mas os nomes de seu marido e filhos. A tríade nominal torna-se mantra terapêutico, recurso de sobrevivência psicológica. Esperança, o homem morto, continua vivo como palavra, como invocação, como força que sustenta a viúva. O título, assim, é desmentido pela própria narrativa: Esperança morreu, mas a esperança permanece – não como abstração, mas como memória encarnada.
A crítica literária norte-americana Elaine Scarry, em The Body in Pain, estudou como a dor extrema desfaz a linguagem, mas também como a linguagem pode refazer o mundo após o trauma (SCARRY, 1985, p. 112). O título de Pescador inscreve-se nesta dialética: ao declarar a morte da esperança, ele nomeia a dor máxima; ao fazê-lo, porém, mantém viva a palavra "esperança", que continua a ecoar na mente do leitor. A morte é afirmada, mas o significante sobrevive – e com ele, a possibilidade de que um dia o significado retorne.
Há ainda uma dimensão metalinguística no título. Ao nomear a si mesmo, o livro anuncia sua própria incompletude. Na Terra da Aflição Morreu Esperança é apenas a primeira metade de uma história que exige complemento. O leitor que chega ao final do volume sabe que a narrativa não está concluída – Doçura e Fraqueza retornam a Aconchego, mas o que as espera? O título do segundo volume, já anunciado, funciona como promessa que sustenta a esperança exatamente onde ela morreu.
O filósofo Ernst Bloch, em O Princípio Esperança, monumental estudo sobre a utopia, afirmou que "esperança é o modo de ser do homem diante do futuro, é a consciência antecipadora que nos impulsiona para frente" (BLOCH, 1959, p. 85). Pescador parece levar esta intuição às últimas consequências: seu primeiro volume narra a morte da esperança, mas é precisamente esta narração que mantém viva a possibilidade de sua ressurreição. O título, como a pedra do sepulcro, anuncia que algo foi enterrado – mas também que algo pode ser reencontrado.
A originalidade da operação reside, portanto, na dupla temporalidade inscrita no título. Ele é, simultaneamente, epitáfio e profecia. Como epitáfio, registra uma perda irreparável – um homem, uma virtude, um mundo. Como profecia, aponta para além de si mesmo, para o segundo volume onde a esperança renascerá. O leitor é colocado na posição de Maria Madalena diante do túmulo vazio: a morte foi anunciada, mas o que significa esta morte? O que virá depois?
Ao final da travessia, compreende-se que o título não era apenas sobre Esperança, o personagem – era sobre todas as esperanças que morrem em terras de aflição. Sobre a esperança de Doçura em ver os filhos viverem, sobre a esperança de Fraqueza em escapar da violência familiar, sobre a esperança de Covardia em ser amada sem ser violada. O título é, assim, um inventário de perdas – mas também, pela própria existência do livro que o carrega, um testemunho de que algo sobrevive.
Pois se a esperança tivesse morrido definitivamente, não haveria livro. Não haveria narrativa. Não haveria testemunho. O fato de que a história pôde ser contada – por um autor que também conheceu suas aflições, que também perdeu suas esperanças – é a prova de que a morte anunciada no título não é a última palavra. A última palavra, como sempre na tradição judaico-cristã que Pescador herda e transforma, é a palavra que virá depois: renasceu.
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Referências bibliográficas
BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança. Volume I. Tradução de Nélio Schneider. Rio de Janeiro: Contraponto, 1959.
GENETTE, Gérard. Seuils. Paris: Éditions du Seuil, 1987.
MARCEL, Gabriel. Homo Viator: Prolégomènes à une métaphysique de l'espérance. Paris: Aubier, 1945.
MOLTMANN, Jürgen. Teologia da Esperança. Tradução de Helmuth Alfredo Simon. São Paulo: Loyola, 1964.
PESCADOR, Pedrim. Na Terra da Aflição Morreu Esperança. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.
SCARRY, Elaine. The Body in Pain: The Making and Unmaking of the World. Oxford: Oxford University Press, 1985.
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Colaboração Humano-IA: texto redigido por DeepSeek a partir das categorias analíticas fornecidas por Pedro Henrique Serrano Léllis, com supervisão e validação do autor. Este artigo segue as normas da ABNT para publicações científicas e foi estruturado para submissão a periódicos acadêmicos na área de Teoria Literária e Estudos Narrativos.
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