#PER_NOM – ONOMÁSTICA O nome como destino: a alegoria nominal em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
#PER_NOM – ONOMÁSTICA O nome como destino: a alegoria nominal em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
Chamar-se é ser: quando o nome diz tudo (e mais um pouco)
---
Há uma tradição antiga, quase tão antiga quanto a própria literatura, que consiste em dar aos personagens nomes que já contam sua história. É a onomástica alegórica, presente nos autos medievais, nas moralidades, na literatura puritana, e que sobrevive, como um fóssil vivente, em certas vertentes da ficção popular. O leitor encontra um personagem chamado "Bom Senso" e já sabe que ele será sensato; encontra "Mau Caráter" e se prepara para o pior.
O problema desta tradição é que ela tende ao esquematismo. Personagens assim nomeados correm o risco de se tornarem meras funções, peças de um tabuleiro onde o jogo já está decidido antes de começar. O que salva a onomástica alegórica da pobreza é a capacidade do escritor de fazer o nome dialogar com a trajetória – de mostrar que o destino anunciado pode ser cumprido ou subvertido, que o nome pode ser jaula ou pode ser trampolim.
Pedrim Pescador, em Na Terra da Aflição Morreu Esperança, opera esta dialética com rara felicidade. Seus personagens têm nomes que são programas narrativos – Esperança, Doçura, Força, Coragem, Fraqueza, Covardia, Maus-Tratos, Iraldo –, mas estes nomes não os aprisionam. Ao contrário: a narrativa testa cada nome, submete-o à prova da experiência, e o resultado desta prova é que define, afinal, quem cada um é.
O crítico Antonio Candido, em seu ensaio "A Personagem do Romance", observou que "o nome próprio, na ficção, não é apenas uma etiqueta, mas um núcleo de significações que se vai desdobrando ao longo da narrativa" (CANDIDO, 1964, p. 23). Em Pescador, este desdobramento é levado às últimas consequências: cada nome é uma hipótese sobre o personagem, e a história é o experimento que confirma ou refuta a hipótese.
---
ESPERANÇA: O NOME QUE MORRE
Comecemos pelo patriarca. Esperança é o primeiro nome que encontramos, e já carrega um peso teológico considerável. Na tradição cristã, a esperança é uma das três virtudes teologais, ao lado da fé e da caridade. É aquilo que nos permite avançar em direção ao futuro confiando na promessa, mesmo quando o presente parece negá-la.
O que significa, então, que Esperança morra no meio da narrativa?
A morte de Esperança é, no nível mais imediato, a morte de um homem. Mas é também, no nível alegórico, a morte da esperança na Terra de Aflição. Ali, naquela cidade violenta e competitiva, a esperança não pode sobreviver. Ela morre como morrem os justos, como morrem os sonhos, como morre a possibilidade de futuro.
Mas há um detalhe crucial: Esperança morre, mas seu nome sobrevive. Doçura, ao longo de todo o luto, repete a tríade "esperança, força e coragem" como um mantra. A palavra continua viva, mesmo depois que o homem se foi. E é esta palavra que sustentará a viúva e a nora na travessia final.
O teólogo Jürgen Moltmann, em sua Teologia da Esperança, argumentou que "a esperança cristã não é uma fuga do mundo, mas a força que move o mundo em direção ao futuro prometido" (MOLTMANN, 1964, p. 21). Em Pescador, a esperança que move o mundo é a que sobrevive à morte de Esperança – a que Fraqueza desperta em Doçura quando tudo parecia perdido. O nome do patriarca, afinal, não era apenas seu: era um legado que ele deixou para as mulheres que continuaram.
---
DOÇURA: A DOCE QUE SE TORNA AMARGA (E VOLTA A SER DOCE)
Doçura é, talvez, o personagem de arco mais complexo da narrativa. Seu nome promete afabilidade, meiguice, suavidade. E ela é tudo isso, no início:
"Doçura, mulher meiga e afável, não gostou da ideia de se mudar para a Terra da Aflição" (PESCADOR, 2024, p. 14).
"Doçura, sempre tão alegre, sorridente, gordinha, feliz, cozinheira, atenciosa a tudo e a todos da família" (PESCADOR, 2024, p. 15).
A repetição de adjetivos ligados à doçura – meiga, afável, alegre, sorridente, feliz, atenciosa – constrói um personagem que encarna seu nome. Doçura é doce como o mel, como o açúcar, como tudo o que a palavra evoca.
Mas a migração para Aflição começa a corroer esta doçura. Primeiro, discretamente:
"Doçura ficava cada dia mais amargurada. Seu rosto e semblante já não eram mais os mesmos" (PESCADOR, 2024, p. 15).
Depois, violentamente:
"Doçura pegou uma vassoura e deu com ela em Covardia, gritando e enxotando-a do Mercado, à vista de todos os clientes" (PESCADOR, 2024, p. 40).
A cena é chocante precisamente porque contradiz o nome. A doce que agride, a meiga que xinga, a afável que enxota – o que está acontecendo? Aflição está desnaturando Doçura, fazendo com que ela se torne o oposto do que seu nome anuncia.
No auge do desespero, após a morte dos filhos, Doçura explicita a contradição:
"Já não posso me chamar Doçura, pois estou amarga até o fim" (PESCADOR, 2024, p. 89).
O nome, aqui, é vivido como fardo. Doçura sente que não tem mais direito a ele, que a amargura que a habita tornou a designação uma mentira. É o momento de maior tensão entre o nome e a pessoa.
Mas a narrativa não termina aí. No retorno a Aconchego, algo se restaura:
"Seus olhos encheram-se de lágrimas e lá vinha Doçura cantarolando e tocando os camelos para que andassem mais rápido. Tirou os panos que cobriam seu rosto e sorria para Fraqueza" (PESCADOR, 2024, p. 92-93).
O sorriso volta. O canto volta. A doçura, que parecia perdida para sempre, reencontra-se no reencontro com a terra de origem. O nome, que havia sido negado, é reassumido. Doçura torna a ser doce – não a doce ingênua do início, mas uma doce atravessada, que conheceu o amargo e o incorporou sem se deixar destruir por ele.
---
FORÇA E CORAGEM: OS NOMES QUE MORREM JOVENS
Força e Coragem são os filhos. Seus nomes anunciam virtudes guerreiras, qualidades que deveriam ajudá-los a enfrentar as adversidades da vida. E, de fato, eles as possuem:
"Os menos preocupados com a mudança e partida eram Força e Coragem. Estavam animados e se preparando para enfrentarem o deserto e residir naquela terra contrária e violenta" (PESCADOR, 2024, p. 16-17).
"Para aqueles dois irmãos, qualquer desafio ou trabalho que lhes fossem à altura não era de modo algum problema. Sempre fizeram tudo juntos, dificilmente discutiam" (PESCADOR, 2024, p. 23).
Força é forte, Coragem é corajoso. Os nomes se cumprem. Mas o que a narrativa nos mostra é que a força e a coragem individuais não bastam. Diante da violência organizada da Ordem do Massacre, os dois irmãos são mortos como animais:
"Força e Coragem reagira e entraram em luta corporal contra vários homens, conseguindo até ferir a alguns, mas outros vieram, armados com facões e cimitares e desferiram sobre os dois irmãos golpes cortantes que lhes foram fatais" (PESCADOR, 2024, p. 84).
A morte de Força e Coragem é a crítica mais contundente ao individualismo heroico. De que adianta a força, se o sistema é mais forte? De que adianta a coragem, se a covardia está organizada em milícias? Os nomes dos irmãos, que prometiam vitória, entregam apenas tragédia.
Mas, como no caso de Esperança, os nomes sobrevivem aos seus portadores. Doçura, ao repetir "esperança, força e coragem", mantém viva a memória dos filhos e a qualidade que eles encarnavam. E no final, quando Fraqueza desperta nela a esperança perdida, a tríade se completa: a força e a coragem que os irmãos não puderam usar para sobreviver tornam-se as virtudes que as mulheres usam para atravessar o deserto.
---
FRAQUEZA: O NOME QUE SE TRANSFORMA
Fraqueza é, de longe, o personagem mais fascinante da obra do ponto de vista onomástico. Seu nome é um diagnóstico social – ela é chamada de Fraqueza porque foi tratada como fraca a vida inteira, porque a violência doméstica a reduziu a esta condição:
"Era branca, magrela, tipo meio pálida e rosto não muito alegre" (PESCADOR, 2024, p. 43).
"Fraqueza precisava viver, precisava respirar, precisava ver o sol, precisava quase que nascer de novo. Mas não sabia como nem se valia a pena" (PESCADOR, 2024, p. 44).
O nome, aqui, é uma profecia que se auto-cumpre – chamada de fraca, tratada como fraca, Fraqueza internaliza esta designação e se torna o que dizem que ela é.
Mas a narrativa de Pescador é generosa com seus personagens. Fraqueza encontra Força (o irmão) e, através dele, encontra também a possibilidade de contradizer o nome:
"Fraqueza passou a se dedicar à família de Esperança, ao mercado e a ajudar Doçura. Ajudava tanto no mercado quanto em casa. Nas duas casas. Quem diria que Fraqueza poderia se tornar uma mulher tão dedicada e forte? Já nem estava mais tão apática, e ainda que tímida, vivia sorrindo e feliz da vida ao lado do seu amor Força" (PESCADOR, 2024, p. 58).
A pergunta retórica – "Quem diria que Fraqueza poderia se tornar uma mulher tão dedicada e forte?" – é a voz do narrador celebrando a subversão do nome. Fraqueza tornou-se forte, mesmo chamando-se Fraqueza. O nome, que parecia destino, revela-se apenas ponto de partida.
O clímax desta subversão ocorre no santuário:
"Fraqueza raspou seus cabelos, pôs um pano de seda para cobrir sua cabeça. Fez um voto ao Eterno: pediu força, graça, paz, alegria de viver e toda a felicidade que nunca tinha vivido" (PESCADOR, 2024, p. 75).
O gesto de raspar os cabelos, tradicionalmente associado ao luto e à penitência, é aqui um rito de passagem – Fraqueza morre para o que era e nasce para o que pode ser. O nome permanece, mas a pessoa já não é a mesma.
No final, é Fraqueza quem desperta em Doçura a esperança perdida. A fraca torna-se fortaleza para a sogra, invertendo completamente a expectativa criada pelo nome. Como observa a teóloga feminista Ivone Gebara, "as mulheres aprendem, na travessia da dor, que sua força não está em negar a fraqueza, mas em assumi-la como lugar de resistência" (GEBARA, 2002, p. 34). Fraqueza é precisamente isto: a força que emerge quando se aceita ser fraco.
---
COVARDIA: O NOME QUE CONDENA (E LIBERTA)
Covardia é o contraponto de Fraqueza. Seu nome também é um diagnóstico social – ela é chamada de covarde porque aprendeu, na violência doméstica, que a agressividade é a única defesa possível:
"Era sensual, hiperativa, dava risadas altas e escandalosas. Desejadas por muitos homens sabia se defender deles por meio de escândalos, tapas mentiras e gritos. Isto é, dos homens que ela não queria, pois os que queria, seduzia até a morte" (PESCADOR, 2024, p. 35).
Covardia não é covarde no sentido de medrosa – é agressiva, barulhenta, dominadora. Mas sua agressividade é uma máscara para a vulnerabilidade que não pode mostrar. O nome, aqui, é ironia: chamam-na de covarde porque ela usa a violência para esconder o medo, e esta violência a torna, aos olhos dos outros, exatamente o que o nome diz.
A tragédia de Covardia é que ela internaliza esta lógica. Quando é estuprada e perde o marido e o cunhado, sua reação é a de quem sempre foi tratada como descartável:
"Covardia tornou-se uma mulher oprimida e deprimida. Não dormia direito e quando dormia tinha pesadelos terríveis" (PESCADOR, 2024, p. 89).
O nome, que antes parecia injusto (ela não era covarde, era agressiva), agora se revela profético: sem a máscara da agressividade, o que resta é a covardia pura, o medo sem disfarce, a depressão sem defesa.
Diferentemente de Fraqueza, Covardia não encontra redenção na narrativa. Seu nome a condena a repetir o ciclo: violentada, ela se torna a covarde que sempre disseram que era. A obra não oferece consolo fácil – algumas feridas são profundas demais para cicatrizar no tempo de uma travessia.
---
IRALDO E MAUSTRATOS: OS NOMES QUE CONDENAM SEM APELO
Os pais de Covardia e Fraqueza têm nomes que são sentenças. Iraldo é "irado" – vive com raiva, controlador, explosivo:
"Iraldo era um homem de baixa estatura, comerciante, nem rico nem pobre, mas constantemente estressado e explosivo. Era ignorante com a mulher e suas duas filhas, Fraqueza e Covardia. Era muito duro e intransigente com tudo. Controlador, tudo tinha que ser do jeito dele" (PESCADOR, 2024, p. 31).
Maustratos é "maus-tratos" – encarna a violência doméstica em pessoa:
"Maustratos, casada com Iraldo, era aquele tipo de mulher richosa, fofoqueira, também controladora e muito ciumenta. Não teve mãe nem pai, casou-se muito cedo e era muito amargurada" (PESCADOR, 2024, p. 32).
Diferentemente de Fraqueza e Covardia, Iraldo e Maustratos não se transformam. Seus nomes são jaulas das quais não conseguem escapar. A narrativa os abandona onde os encontrou – na violência, na amargura, na reprodução do ciclo que os produziu. É a condenação dos que, tendo poder para mudar, escolhem perpetuar a dor.
---
PERSEVERANÇA, SAUDADE, CONSOLO: OS NOMES QUE ACOLHEM
No retorno a Aconchego, Doçura encontra personagens cujos nomes são acolhimento. Perseverança, Saudade e Consolo são as amigas que a recebem:
"Doçura encontrou um casal de amigos de infância, Perseverança e Saudade, que as recebeu ternamente, convidaram-nas para se achegar e descansar da travessia antes que adentrassem para a Terra de Aconchego" (PESCADOR, 2024, p. 93).
"Doçura e Fraqueza passaram uns dias na casa de uma amiga de família, Consolo, até que uma outra casa fosse limpa e preparada para elas" (PESCADOR, 2024, p. 95).
Perseverança é a que persiste, Saudade é a que lembra, Consolo é a que acolhe. Seus nomes são funções narrativas – elas existem para fazer exatamente o que seus nomes dizem. Mas, diferentemente de Iraldo e Maustratos, estas funções são bênçãos, não condenações. Em Aconchego, o nome ainda pode ser dom; em Aflição, o nome é quase sempre fardo.
---
O QUE OS NOMES REVELAM SOBRE O MUNDO DE PESCADOR
O sistema onomástico de Pedrim Pescador é, ele mesmo, um diagnóstico social. Os nomes revelam como cada sociedade trata seus membros: em Aconchego, as pessoas podem chamar-se Perseverança, Saudade, Consolo – nomes que designam virtudes e afetos. Em Aflição, as pessoas chamam-se Iraldo, Maus-Tratos, Covardia, Fraqueza – nomes que designam defeitos e violências.
A diferença é cruel e precisa. Numa sociedade justa, o nome pode ser um dom – uma designação que ajuda a pessoa a tornar-se o que já anuncia. Numa sociedade violenta, o nome é uma condenação – uma profecia que a pessoa passará a vida tentando cumprir ou fugir.
O que salva Fraqueza, e não salva Covardia, é precisamente a possibilidade de encontrar um outro mundo – a família de Esperança, o amor de Força, o santuário do Eterno, a travessia de volta a Aconchego. Covardia fica em Aflição, presa ao nome que lhe deram. Fraqueza atravessa o deserto e, ao chegar a Aconchego, pode finalmente habitar seu nome de outro modo – não mais como condenação, mas como memória do que foi e testemunho do que se tornou.
---
CONCLUSÃO: O NOME COMO CAMPO DE BATALHA
Em Na Terra da Aflição Morreu Esperança, os nomes não são etiquetas. São campos de batalha – lugares onde se decide quem cada um é, quem cada um pode vir a ser, quem cada um será lembrado como. Esperança morre, mas seu nome sobrevive. Força e Coragem são assassinados, mas suas virtudes encarnam nas mulheres que prosseguem. Fraqueza contradiz seu nome e se torna forte. Covardia sucumbe ao seu. Iraldo e Maus-Tratos permanecem o que sempre foram.
O crítico literário Mikhail Bakhtin, em seus estudos sobre o romance, observou que "o nome próprio, na ficção, é o ponto de encontro entre o destino individual e a história coletiva" (BAKHTIN, 1929, p. 45). Em Pescador, este encontro é sempre trágico, sempre tenso, sempre aberto. O nome pode ser jaula, mas também pode ser trampolim. Pode ser condenação, mas também pode ser promessa. Tudo depende do que se faz com ele – e do que o mundo faz conosco.
No final, quando Doçura e Fraqueza chegam a Aconchego, a pergunta que fica é: que nome receberão agora? A narrativa não responde. Mas o leitor suspeita que, na terra do aconchego, talvez os nomes possam finalmente repousar em paz.
---
Referências bibliográficas
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da Poética de Dostoiévski. Tradução de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1929.
CANDIDO, Antonio. "A Personagem do Romance". In: A Personagem de Ficção. São Paulo: Perspectiva, 1964.
GEBARA, Ivone. A Mobilidade da Senzala Feminina: Mulheres, Teologia e Sociedade. São Paulo: Paulinas, 2002.
MOLTMANN, Jürgen. Teologia da Esperança. Tradução de Helmuth Alfredo Simon. São Paulo: Loyola, 1964.
PESCADOR, Pedrim. Na Terra da Aflição Morreu Esperança. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.
---
Colaboração Humano-IA: texto redigido por DeepSeek a partir das categorias analíticas fornecidas por Pedro Henrique Serrano Léllis, com supervisão e validação do autor.
Comentários
Postar um comentário