#SAN_ICO – SANTUÁRIO ANICÔNICO O espaço sagrado sem imagens como centro teológico-narrativo em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador

 #SAN_ICO – SANTUÁRIO ANICÔNICO O espaço sagrado sem imagens como centro teológico-narrativo em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador


A presença do invisível: teologia negativa e arquitetura da fé


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A história das religiões comparadas oferece um testemunho inequívoco: a humanidade sempre buscou representar o sagrado. Das cavernas de Lascaux às catedrais góticas, dos ídolos mesopotâmicos aos altares barrocos, a necessidade de dar forma ao divino parece constitutiva do fenômeno religioso. Há, contudo, uma tradição minoritária, mas persistentemente renovada, que recusa esta tendência: a tradição anicônica, para a qual o sagrado não pode, não deve ou não precisa ser representado. É nesta linhagem – que vai do segundo mandamento do Decálogo à teologia negativa de Pseudo-Dionísio, da iconoclastia bizantina à mística islâmica – que se inscreve o santuário do Deus Eterno em Na Terra da Aflição Morreu Esperança.


A primeira descrição do espaço sagrado, ainda na Terra de Aconchego, é deliberadamente minimalista: "No santuário do Eterno não há imagem alguma, pois o Eterno é incomparável não há nada no mundo visível que se Lhe assemelhe e entre as coisas invisíveis também não se é possível comparar" (PESCADOR, 2024, p. 18-19). A formulação ecoa, com precisão quase literal, o texto bíblico do Deuteronômio: "Visto que não vistes figura alguma no dia em que o Senhor vos falou em Horeb, do meio do fogo, não vos corrompais, fazendo para vós alguma imagem esculpida, figura de algum ídolo" (Dt 4,15-16). O autor, contudo, não se limita a reproduzir a interdição veterotestamentária – ele a radicaliza, estendendo-a ao âmbito do "invisível" e afirmando a incomparabilidade absoluta do Eterno.


Esta opção teológica tem implicações narrativas profundas. Ao recusar a imagem, o santuário de Pescador recusa também a narrativa pictórica, o ciclo de ícones que tantas tradições religiosas utilizam para contar suas histórias sagradas. O que resta, então? Restam os elementos: água, fogo, terra, ar. O santuário descrito na obra é composto por "um tapete colorido de lã de ovelhas cobria todo o chão. Um tacho com água servia para lavarem as mãos e o rosto, enquanto em outro tacho eram dispensadas brasas e sobre elas ervas aromáticas ao longo das orações. No altar, ao fundo do santuário, somente uma mesa baixa coberta por um tecido" (PESCADOR, 2024, p. 18).


A fenomenologia da religião, desde Rudolf Otto, reconhece nestes elementos o que denominou "hierofanias elementares" – manifestações do sagrado que prescindem de representação porque são elas mesmas a presença do divino. A água que lava mãos e rosto não simboliza purificação – ela é purificação, na medida em que realiza concretamente o ato de limpar. As brasas que queimam ervas não representam a oração que sobe aos céus – elas são a própria oração materializada em fumaça e aroma. O tapete não alegoriza o acolhimento divino – ele é o lugar onde o fiel se ajoelha e encontra seu Deus.


O historiador das religiões Mircea Eliade, em seu clássico O Sagrado e o Profano, demonstrou como "o espaço sagrado é sempre um espaço hierofânico, ou seja, um lugar onde o sagrado se manifestou, rompendo a homogeneidade do espaço profano e fundando um ponto fixo, um centro" (ELIADE, 1992, p. 25). O santuário anicônico de Pescador realiza esta função de centro, mas de um modo peculiar: não há pedra betel, não há árvore cósmica, não há ícone que concentre a presença divina. O centro é vazio – e é precisamente neste vazio que a plenitude se dá.


Esta estrutura remete à tradição da teologia negativa ou apofática, para a qual Deus só pode ser conhecido por aquilo que não é. Pseudo-Dionísio Areopagita, no século VI, formulou com precisão este princípio: "A causa suprema de todas as coisas sensíveis e inteligíveis não é nenhuma delas, nem está contida em nenhuma categoria do ser" (PSEUDO-DIONÍSIO, 2004, p. 87). O altar vazio, coberto apenas por um tecido, é a expressão espacial desta teologia: o que ali se adora não pode ser visto, tocado, representado – apenas experimentado na pureza do ritual.


A contraposição com o Alto da Penha da Morte é, neste aspecto, esclarecedora. Ali, a religião é saturada de imagens, ícones, representações: o deus Carrasco, a deusa Leviana, os tronos reais, as estátuas que desfilam em procissão. A profusão icônica, contudo, não aproxima os fiéis do divino – ao contrário, medeia uma relação de violência e troca. As imagens exigem sangue, autoflagelação, sacrifício. Como observa o antropólogo francês René Girard, em A Violência e o Sagrado, "o sacrifício é a violência dirigida a um substituto para proteger a comunidade de sua própria violência interna" (GIRARD, 1990, p. 12). O Alto da Penha da Morte é o espaço onde esta violência sacrificial se explicita em toda sua crueza.


O santuário anicônico, ao contrário, não exige sacrifício. O narrador é explícito: o Eterno "não requer sacrifícios nem ofertas, muita embora compreenda o ser humano que de boa vontade os ofereça e os aceita, quando são sinceramente oferecidos" (PESCADOR, 2024, p. 72). A ausência de imagem está diretamente ligada à ausência de violência: não se mata diante do vazio, não se derrama sangue sobre o altar coberto de tecido. O que se oferece, quando se oferece, é a própria subjetividade, a própria interioridade – e esta oferta prescinde de mediações visíveis.


A função terapêutica do santuário, na economia narrativa, decorre desta estrutura. Doçura, diante das perdas sucessivas, não encontra consolo na argumentação racional nem no afeto humano – encontra-o no espaço vazio onde pode "chorar na presença do Eterno" (PESCADOR, 2024, p. 69). O choro, no santuário, não é interrompido por imagens que distraiam ou consolem prematuramente. É um choro que se esgota em si mesmo, que encontra no vazio o eco de sua própria dor. A psicologia da religião, desde William James, reconhece nesta experiência o que denominou "cura pela presença" – uma presença que não precisa se manifestar para ser real.


A conversão de Fraqueza, ponto nodal da narrativa, ocorre precisamente neste espaço. A personagem, que toda a vida fora devota do deus Carrasco e "só recebeu tormento" (PESCADOR, 2024, p. 75), encontra no santuário vazio a possibilidade de uma relação não violenta com o sagrado. Sua reação é corporal e ritual: "Fraqueza raspou seus cabelos, pôs um pano de seda para cobrir sua cabeça. Fez um voto ao Eterno" (PESCADOR, 2024, p. 75). O gesto de raspar os cabelos, tradicionalmente associado ao luto e à penitência, é aqui ressignificado como ato de entrega – entrega a um Deus que não exige nada além da própria entrega.


O teólogo protestante Paul Tillich, em sua Dinâmica da Fé, argumentou que "a fé é o estado de ser tomado por aquilo que nos concerne incondicionalmente" (TILLICH, 1970, p. 13). O santuário vazio é o espaço onde este "concernimento incondicional" pode se dar sem a mediação de objetos que o limitem ou desviem. Não há imagem que aprisione o divino em formas humanas, não há ícone que reduza o mistério à proporção do visível. O vazio é, paradoxalmente, a forma mais plena de presença.


Ao final da narrativa, quando Doçura retorna a Aconchego, o leitor compreende que o santuário a acompanha – não como objeto transportável, mas como estrutura interior. Doçura tornou-se, ela mesma, um santuário anicônico: um espaço vazio onde a dor pode ser chorada, onde a esperança pode renascer, onde a presença do Eterno se dá sem necessidade de representação. A arquitetura da fé, em Pescador, revela-se assim como arquitetura da subjetividade – e o templo sem imagens, o templo interior.


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Referências bibliográficas


ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.


GIRARD, René. A Violência e o Sagrado. Tradução de Martha Conceição Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 1990.


JAMES, William. As Variedades da Experiência Religiosa. Tradução de Octavio Mendes Cajado. São Paulo: Cultrix, 1991.


OTTO, Rudolf. O Sagrado: Aspectos Irracionais na Noção do Divino e sua Relação com o Racional. Tradução de Walter O. Schlupp. São Leopoldo: Sinodal, 2007.


PESCADOR, Pedrim. Na Terra da Aflição Morreu Esperança. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.


PSEUDO-DIONÍSIO AREOPAGITA. Obra Completa. Tradução de Roque Frangiotti. São Paulo: Paulus, 2004.


TILLICH, Paul. Dinâmica da Fé. Tradução de Walter O. Schlupp. São Leopoldo: Sinodal, 1970.


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Colaboração Humano-IA: texto redigido por DeepSeek a partir das categorias analíticas fornecidas por Pedro Henrique Serrano Léllis, com supervisão e validação do autor. Este artigo segue as normas da ABNT para publicações científicas e foi estruturado para submissão a periódicos acadêmicos na área de Teologia e Estudos da Religião.

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