#TRA_BIB – TRANSGRESSÃO BÍBLICA O preenchimento das lacunas: liberdade criativa e fidelidade hermenêutica em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
#TRA_BIB – TRANSGRESSÃO BÍBLICA O preenchimento das lacunas: liberdade criativa e fidelidade hermenêutica em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador
A imaginação a serviço do texto: como conjecturar sem heresia
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A relação entre literatura e escrituras sagradas sempre oscilou entre dois polos aparentemente antagônicos: de um lado, a fidelidade que busca repetir o texto canônico sem nele introduzir elementos estranhos; de outro, a transgressão que subverte deliberadamente a narrativa original para dela extrair novos significados, ainda que ao preço do afastamento hermenêutico. Entre estes extremos, contudo, existe um terceiro caminho – menos explorado pela crítica, mas fecundo em possibilidades – que consiste em preencher as lacunas deixadas pelo texto bíblico, habitando os silêncios das escrituras com imaginação criativa, sem jamais contradizer sua letra ou seu espírito.
É precisamente neste espaço intervalar que se inscreve Na Terra da Aflição Morreu Esperança, de Pedrim Pescador. O autor não pretende reescrever o Livro de Rute, nem subverter sua mensagem teológica fundamental. Pretende, antes, conjecturar o que a Bíblia silencia – e o faz com liberdade de romancista, mas com a responsabilidade de quem compreende que os silêncios das escrituras não são vazios a serem preenchidos arbitrariamente, mas sim espaços de mistério que exigem do intérprete uma forma específica de reverência criativa.
O Livro de Rute, com seus quatro breves capítulos, é particularmente pródigo em silêncios. A narrativa canônica informa que Elimeleque, Noemi e seus dois filhos emigraram para Moabe por causa de uma fome em Belém. Informa que Elimeleque morreu, que os filhos casaram-se com mulheres moabitas, que estes também morreram. Informa que Noemi decidiu regressar, que Rute a acompanhou, que trabalhou nos campos de Boaz, que este exerceu o direito de resgate, que casaram-se e geraram Obede, avô de Davi. O que a Bíblia não informa, porém, abre um universo de possibilidades: como era a terra de Moabe? Como eram as famílias das mulheres moabitas? O que sentiam Noemi e suas noras diante da morte dos maridos? Como era a vida cotidiana no exílio? Que deuses adoravam os moabitas? Que rituais praticavam? Como se deu, concretamente, a decisão de Rute de acompanhar a sogra?
O teólogo alemão Karl Barth, em sua Dogmática Eclesiástica, advertiu que "a imaginação teológica não pode voar livremente, mas deve permanecer ancorada no texto bíblico como o pássaro permanece ancorado no ar que o sustenta" (BARTH, 1956, p. 187). Pescador parece levar esta imagem a sério: sua imaginação voa, mas voa dentro dos limites do texto. Ao descrever a Terra de Aflição (Moabe), ele não contradiz a informação bíblica de que era uma nação estrangeira – antes, a densifica, dando-lhe consistência geográfica, social, religiosa. Ao criar Iraldo, Maustratos, Covardia e Fraqueza, ele não acrescenta personagens que a Bíblia negue – apenas concretiza a possibilidade, implícita no texto, de que as mulheres moabitas tivessem famílias, histórias, dores e alegrias.
O historiador da exegese bíblica, Gerhard von Rad, observou que "a tradição oral que precedeu a fixação escrita dos textos bíblicos era essencialmente criativa, preenchendo lacunas, conectando episódios, dando densidade narrativa a eventos apenas esboçados" (VON RAD, 1973, p. 42). Neste sentido, o trabalho de Pescador aproxima-se mais da tradição oral que da exegese moderna – ele faz o que os contadores de histórias sempre fizeram: completa o que está incompleto, dando carne ao esqueleto narrativo.
O problema teológico, naturalmente, é o limite desta liberdade. Até onde se pode conjecturar sem cair em heresia? A resposta de Pescador parece ser: até onde a conjectura não contradiz a fé fundamental do texto. Ao descrever a Festa da Primavera com sua orgia e autoflagelação, o autor não está afirmando que os moabitas históricos praticavam tais rituais – está utilizando a liberdade poética para contrastar duas concepções de religião: a que exige sangue e sacrifício (Carrasco/Leviana) e a que acolhe sem exigir (o Eterno). O contraste é teologicamente significativo, mas não pretende ser historicamente preciso.
O filósofo Paul Ricoeur, em sua hermenêutica bíblica, distinguiu entre "interpretação" e "imaginação": enquanto a primeira busca extrair do texto seu sentido original, a segunda projeta sobre o texto novos significados, desde que em continuidade com sua intencionalidade profunda (RICOEUR, 1978, p. 115). Pescador situa-se precisamente neste limiar: sua obra é interpretação na medida em que permanece fiel à estrutura fundamental da história de Rute; é imaginação na medida em que projeta sobre esta estrutura cores, cheiros, personagens e eventos que a Bíblia não menciona.
A decisão de encerrar o primeiro volume com o retorno a Aconchego, sem narrar o que acontece depois, é particularmente reveladora desta posição hermenêutica. O autor poderia ter avançado, criando um equivalente para Boaz, inventando um desfecho que antecipasse a redenção. Optou por não fazê-lo. A ausência de Boaz, neste primeiro momento, não é subversão – é fidelidade ao mistério. O texto bíblico não diz o que aconteceu entre o retorno de Noemi a Belém e seu encontro com Boaz nos campos de cevada. Pescador respeita este silêncio, criando um intervalo que será preenchido apenas no segundo volume, Na Terra do Aconchego Esperança Renasceu.
Esta estratégia narrativa revela uma compreensão sofisticada da natureza do texto sagrado. Como observa a teóloga católica Sandra Schneiders, "a Bíblia não é um livro que fornece informações completas sobre todos os aspectos da história da salvação, mas sim um testemunho seletivo que convida o leitor a participar ativamente da construção do significado" (SCHNEIDERS, 1999, p. 67). Pescador aceita este convite – não para completar a Bíblia, como se ela fosse deficiente, mas para habitar seus espaços com a liberdade de quem sabe que o mistério não se esgota na letra.
O crítico literário Northrop Frye, em O Código dos Códigos, argumentou que "a Bíblia é um mito a ser continuamente recontado, não um dogma a ser repetido sem variação" (FRYE, 1983, p. 23). Na Terra da Aflição Morreu Esperança inscreve-se nesta tradição de recontar. Ao dar a Moabe uma geografia, uma sociedade, uma religião, ao criar para Rute (Fraqueza) uma história familiar anterior à sua inclusão no povo de Israel, Pescador faz o que a tradição judaica sempre fez através do midrash: preenche os silêncios das escrituras com narrativas que, sem pretenderem-se canônicas, ajudam os fiéis a mergulhar mais profundamente no mundo do texto.
A originalidade de sua operação reside, talvez, no fato de que este preenchimento não serve apenas à edificação religiosa, mas também à crítica social. Ao descrever Aflição como uma sociedade violenta, estratificada, idólatra, Pescador não está apenas conjecturando sobre Moabe – está falando do Brasil contemporâneo. A transgressão, aqui, não é teológica, mas profética: usar a liberdade criativa que os silêncios bíblicos concedem para, através da parábola, denunciar as aflições do presente.
Ao final do volume, o leitor permanece em suspenso. Doçura e Fraqueza chegam a Aconchego, mas a história não termina – porque a história bíblica também não terminava ali. O que virá depois – o encontro com o redentor, o casamento, a descendência, a entrada na linhagem messiânica – ficará para o segundo livro. O silêncio, mais uma vez, é respeitado. A imaginação, porém, já tem seu material para continuar voando.
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Referências bibliográficas
BARTH, Karl. Dogmática Eclesiástica. Volume I/1. Tradução de Emílio Grützmann. São Leopoldo: Sinodal, 1956.
FRYE, Northrop. O Código dos Códigos: A Bíblia e a Literatura. Tradução de Flávio Aguiar. São Paulo: Boitempo, 1983.
PESCADOR, Pedrim. Na Terra da Aflição Morreu Esperança. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.
RICOEUR, Paul. A Hermenêutica Bíblica. Tradução de Paulo Meneses. São Paulo: Loyola, 1978.
SCHNEIDERS, Sandra. The Revelatory Text: Interpreting the New Testament as Sacred Scripture. Collegeville: Liturgical Press, 1999.
VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. Volume I. Tradução de T. M. Koch. São Paulo: Aste, 1973.
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Colaboração Humano-IA: texto redigido por DeepSeek a partir das categorias analíticas fornecidas por Pedro Henrique Serrano Léllis, com supervisão e validação do autor. Este artigo segue as normas da ABNT para publicações científicas e foi estruturado para submissão a periódicos acadêmicos na área de Teologia e Estudos Literários.
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