#REC_CAT – CATARSE A purgação das emoções em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança"

 #REC_CAT – CATARSE


A purgação das emoções em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança"


---


O que é catarse


A palavra vem do grego katharsis, que significa purificação, purgação. Aristóteles, na Poética, usou o termo para descrever o efeito da tragédia sobre o espectador: ao ver representados o sofrimento e o horror, o público experimentava compaixão (eleos) e temor (phobos) e, ao final, um alívio – como se as emoções tivessem sido vertidas, purgadas, tornadas suportáveis.


A catarse não é esquecimento. Não é a dor que passa. É a dor que encontra forma e, ao encontrar forma, deixa de sufocar.


Em Na Terra da Aflição Morreu Esperança, Pedrim Pescador não apenas conta uma história trágica. Ele constrói um mecanismo catártico – uma estrutura que permite ao leitor vivenciar a dor, reconhecê-la, e sair do outro lado não curado, mas acompanhado.


---


1. A ESTRUTURA DA CATARSE NA OBRA


Aristóteles identificou dois elementos centrais para a catarse trágica: a peripécia (a reviravolta) e o reconhecimento. Em Pescador, ambos estão presentes, mas operam de modo particular.


1.1. A peripécia (reviravolta)


A grande reviravolta da obra não é única – é dupla:


· A morte de Esperança (capítulo 11) é a primeira queda. O patriarca, que representava a esperança personificada, morre no mar. A família, que ainda tinha Força e Coragem, sustenta-se.

· A morte dos dois filhos (capítulo 14) é a segunda queda, mais devastadora. Força e Coragem são assassinados, Covardia é estuprada. O que restava do masculino se desfaz. A família, agora reduzida a três mulheres (Doçura, Fraqueza e a Covardia ferida), precisa decidir o que fazer.


A catarse não vem da primeira queda. Vem da segunda – porque é ali que a estrutura tradicional de proteção (pai, filhos) se desfaz completamente. O leitor, como Doçura, precisa aprender que não há salvador externo. A salvação, se houver, virá da aliança.


1.2. O reconhecimento


O reconhecimento em Pescador é progressivo, não súbito:


· Doçura reconhece que tem "esperança, força e coragem" dentro de si (capítulo 2).

· Fraqueza reconhece que o deus Carrasco só lhe deu tormento (capítulo 13).

· Covardia não reconhece – e não se salva.

· Doçura reconhece, no final, que precisa de Fraqueza tanto quanto Fraqueza precisa dela.


O reconhecimento mais importante, porém, é o do leitor: a esperança não renasce porque um herói chega. Renasce porque duas mulheres resolvem não se separar.


---


2. COMO A CATARSE É CONSTRUÍDA


2.1. Pela identificação


O leitor se identifica com Doçura (a mãe que perde tudo), com Fraqueza (a ferida que se fortalece), com Covardia (a que não consegue). Cada leitor encontra seu espelho.


A identificação é construída pela focalização interna. O narrador nos coloca dentro da mente de Doçura, de Fraqueza, por vezes de Covardia. Sentimos com elas.


2.2. Pela contenção


Pescador não apela ao sentimentalismo. As cenas mais dolorosas são narradas com secura:


"Caindo ambos de joelhos sobre o chão, ladeando o corpo de seu pai, as lamentações de Força e Coragem se confundiram com as dos demais. Lágrimas, tão raras nos olhos dos irmãos, caíram sobre a face de Esperança" (PESCADOR, 2024, p. 66).


Não há descrição da dor. Há apenas o registro. E essa contenção produz no leitor um efeito paradoxal: a dor se torna mais presente porque não foi esgotada em palavras.


2.3. Pelo ritmo


O ritmo da obra alterna cenas de alta tensão (as mortes, o estupro) com cenas de pausa (o luto, o silêncio no mercado, a travessia do deserto). Essas pausas permitem que o leitor processe o que aconteceu – que a catarse ocorra.


2.4. Pelo ritual


Os rituais na obra (o santuário, o embalsamamento, o choro de Fraqueza) funcionam como modelos para o leitor. Eles mostram como a dor pode ser vertida, organizada, ritualizada. Não são receitas, mas possibilidades.


---


3. O QUE A CATARSE FAZ NO LEITOR


3.1. Permite sentir a dor sem ser destruído por ela


O leitor que chora com Doçura, que se indigna com a Ordem do Massacre, que teme por Fraqueza, que se desespera com Covardia – esse leitor está experimentando emoções fortes dentro de um espaço seguro: o da narrativa. Ao final, a dor não desaparece, mas torna-se suportável.


3.2. Oferece um modelo de transformação


Fraqueza se transforma. Doçura se transforma. Covardia não. O leitor vê que é possível mudar, mas também que não é automático. A transformação exige escolha, aliança, travessia.


3.3. Legitima o luto


Doçura não "supera" a perda. Ela aprende a conviver com ela. O livro diz: não há prazo para o luto. Não há vergonha em sofrer. O que há é a possibilidade de, mesmo no sofrimento, escolher viver.


3.4. Conecta a dor pessoal à dor coletiva


A dor de Doçura é individual. Mas está inscrita em uma estrutura social que violenta, que mata, que abandona os pobres na Beira do Precipício. O leitor que chora por Doçura pode também se perguntar: quantas Doçuras existem na vida real?


---


4. CATARSE E FUNÇÃO TERAPÊUTICA


A catarse em Na Terra da Aflição Morreu Esperança não é apenas um efeito estético – é um propósito do livro. Pescador escreveu, como revela o epílogo, a partir de uma experiência em uma casa de recuperação feminina. O livro nasceu de uma necessidade: contar a história de Rute de forma que as internas se reconhecessem e, reconhecendo-se, encontrassem força.


Essa origem não é acidental. O livro mantém essa função: ser um instrumento de cura.


Para o leitor em luto, a obra oferece:


· Reconhecimento: sua dor tem nome, tem história, não é loucura.

· Companhia: Doçura e Fraqueza atravessam juntas. Você não precisa atravessar sozinho.

· Ritual: o santuário, o choro, o silêncio – modelos de como organizar o caos interno.

· Esperança: não a esperança ingênua de que tudo ficará bem, mas a esperança de que, mesmo depois de perder tudo, ainda é possível cantar no deserto.


---


5. A CATARSE E O SEGUNDO VOLUME


O título do segundo volume – Na Terra do Aconchego Esperança Renasceu – é uma promessa de catarse. Se o primeiro volume é a descida aos infernos, o segundo será, talvez, a ascensão. A esperança que morreu na terra da aflição renasce quando se retorna ao aconchego.


Para o leitor, essa promessa é parte da catarse: saber que a história não terminou na tragédia, que há um depois, que a travessia pode ter um desfecho.


---


6. O QUE FICA


A catarse não é um final feliz. É um reordenamento. O leitor que termina Na Terra da Aflição Morreu Esperança não está alegre – mas está, talvez, menos só. Alguém soube contar sua dor. Alguém a transformou em arte. Alguém mostrou que, mesmo na aflição, é possível – não sempre, não para todos, mas possível – encontrar uma mão estendida.


---


Referências


ARISTÓTELES. Poética. Tradução de Eudoro de Sousa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, séc. IV a.C.


PESCADOR, Pedrim. Na Terra da Aflição Morreu Esperança. Vila Velha/ES: Edição do Autor, 2024.


---


Este artigo integra o projeto enciclopédico de análise da obra de Pedrim Pescador, desenvolvido em colaboração humano-IA.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Catarse na Poética de Aristóteles: Purgação, Estrutura e Função Terapêutica

📚 SISTEMA DE HASHTAGS PARA ANÁLISE ESTRITAMENTE LITERÁRIA

9. VERTENTES LINGUÍSTICAS – APROFUNDAMENTO A matéria sonora da alma: fonética, morfologia, sintaxe e semântica em "Na Terra da Aflição Morreu Esperança" de Pedrim Pescador